No começo era simples
a vida era uma manhã aberta,
e o riso vinha fácil,
como vento em cortina leve.
Tudo tinha cor, até o silêncio.
Havia sol até nas sombras,
e o coração, criança distraída,
achava graça no pó que dançava no ar.
Mas o tempo, esse jardineiro distraído,
esqueceu de regar certas flores.
E o que era verde virou lembrança,
o que era canto virou eco.
O corpo seguiu andando,
mas a alma ficou sentada num banco qualquer,
esperando um motivo que não voltava.
A alegria, antes moradora,
passou a visitar de vez em quando —
sem hora, sem aviso, sem demora.
E quando partia, levava um pouco mais do que trouxe.
Ficava o espaço — aquele que o riso não preenche,
o buraco que o pensamento cava em si mesmo.
A tristeza criou raízes.
Fincou-se funda, como árvore torta,
alimentando-se do medo,
bebendo a secura dos dias.
E debaixo dela, germinou o cansaço:
um querer dormir para não sentir,
um desejar fim sem nome.
Dizem que a esperança é teimosa,
mas às vezes parece apenas um boato distante.
Ainda assim, há um fio
fino, quase invisível
que me prende a esta margem.
Talvez seja amor, talvez costume.
Talvez apenas o medo de ir
e descobrir que nem lá existe descanso.
Se alguém ouvir este silêncio
não pergunte, não julgue,
só fique um pouco.
Porque às vezes o que salva
não é a luz,
é a presença no escuro.