Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

No começo era simples

a vida era uma manhã aberta,

e o riso vinha fácil,

como vento em cortina leve.

Tudo tinha cor, até o silêncio.

Havia sol até nas sombras,

e o coração, criança distraída,

achava graça no pó que dançava no ar.

 

Mas o tempo, esse jardineiro distraído,

esqueceu de regar certas flores.

E o que era verde virou lembrança,

o que era canto virou eco.

O corpo seguiu andando,

mas a alma ficou sentada num banco qualquer,

esperando um motivo que não voltava.

 

A alegria, antes moradora,

passou a visitar de vez em quando —

sem hora, sem aviso, sem demora.

E quando partia, levava um pouco mais do que trouxe.

Ficava o espaço — aquele que o riso não preenche,

o buraco que o pensamento cava em si mesmo.

 

A tristeza criou raízes.

Fincou-se funda, como árvore torta,

alimentando-se do medo,

bebendo a secura dos dias.

E debaixo dela, germinou o cansaço:

um querer dormir para não sentir,

um desejar fim sem nome.

 

Dizem que a esperança é teimosa,

mas às vezes parece apenas um boato distante.

Ainda assim, há um fio

fino, quase invisível

que me prende a esta margem.

 

Talvez seja amor, talvez costume.

Talvez apenas o medo de ir

e descobrir que nem lá existe descanso.

 

Se alguém ouvir este silêncio

não pergunte, não julgue,

só fique um pouco.

Porque às vezes o que salva

não é a luz,

é a presença no escuro.

 

 

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 31/10/2026
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