No jardim que o tempo esqueceu,
um broto nasceu da ternura.
Era frágil, mas dizia ao vento:
“não temo o sol, nasci pra sentir.”
Reguei-a com o que havia em mim:
um silêncio cheio de canções,
um riso cansado de espera,
um coração que acreditava em raízes.
Ela cresceu sob meus olhos,
soberba e doce como promessa.
E eu, tolo alquimista do afeto,
achei que o amor bastava pra nutrir a eternidade.
Mas o amor, quando é flor,
tem sua hora de se inclinar.
Não morre: se entrega ao próprio peso
de tanto existir.
Um dia percebi ,
não era falta de água,
nem sombra, nem sol.
Era o tempo que pedia
um outro ritmo,
um novo sopro.
A flor que tanto amei
desabrochou para o mundo,
e o mundo a acolheu.
Mas parte dela, invisível,
ficou comigo,
no ar que respiro,
no som do vento,
no gesto de regar o nada.
Volto ao jardim todos os dias,
como quem ora sem palavras.
O caule seco ainda guarda
a lembrança do perfume,
e às vezes, nas manhãs silenciosas,
julgo ver um brilho entre as folhas,
talvez lembrança, talvez retorno.
Não há fim.
Há apenas a espera mansa
de quem ainda crê
que o amor floresce
onde o coração permanece.