Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

 

 

Antes de tudo,

é preciso defender o acaso.

 

Coitado.

 

Há séculos ele leva a culpa

por encontros que jamais teria competência

para organizar sozinho.

 

O acaso é distraído,

derruba chaves, perde horários,

faz a pessoa errada sentar na cadeira certa

e depois finge que estava passando por ali.

 

Mas aquilo não foi acaso.

 

Aquilo tinha assinatura escondida,

carimbo invisível,

alguma ata secreta escrita às pressas

por entidades que não entendem de coração humano,

mas adoram mexer nos botões.

 

Talvez tenha sido o destino,

esse velho administrador de condomínio cósmico,

que resolveu abrir exceção

num regulamento que ninguém leu.

 

Talvez uma estrela cansada

de brilhar sem plateia

tenha decidido apontar para nós

com a discrição de um refletor.

 

Talvez o tempo,

sempre tão cheio de si,

tenha tropeçado no próprio relógio

e deixado dois segundos fora do lugar.

 

Dois segundos apenas.

 

Mas há segundos

que têm a imprudência

de fundar uma eternidade.

 

Foi pouco,

como sempre são poucas

as coisas que mudam tudo.

 

Um olhar.

Uma presença.

Um riso atravessando a noite

sem pedir autorização à tristeza.

 

E pronto.

 

A vida, que até então seguia

com seus mapas, suas senhas,

suas pequenas burocracias de sobrevivência,

parou no meio da frase

como quem esquece o próprio argumento.

 

Porque há pessoas que não chegam:

interrompem.

 

Não fazem entrada triunfal,

não descem de nuvens,

não trazem violinos atrás —

embora alguns exageros internos

sejam inevitáveis.

 

Chegam como quem não sabe

que está acontecendo.

 

E é justamente aí

que mora o perigo.

 

A beleza consciente de si

às vezes posa demais.

Mas a beleza que não sabe

anda pela sala

como se fosse apenas gente,

e por isso mesmo

desarruma a metafísica.

 

O coração, esse órgão antigo

com vocação para escândalo,

tentou manter a compostura.

 

Fez o que pôde.

 

Ajeitou a gravata,

consultou a razão,

pediu parecer ao juízo,

recebeu três recomendações de prudência

e arquivou todas

em uma gaveta sem chave.

 

Desde então,

algo ficou diferente.

 

Não no mundo inteiro,

porque o mundo é orgulhoso

e demora a admitir milagres menores.

 

Mas no modo como a luz cai.

No modo como uma música insiste.

No modo como certas palavras

passam a ter fundo duplo,

porão secreto,

janela para o mar.

 

A vida continuou a mesma,

esse é o detalhe mais suspeito.

 

Os compromissos permaneceram.

As ruas não mudaram de nome.

Os bancos continuaram bancos.

Os boletos, infelizmente,

não foram tocados pela transcendência.

 

Mas por dentro

havia uma assembleia de constelações.

 

Planetas discutiam órbitas.

Marés revisavam contratos.

A alma, que já tinha aprendido

a andar com passos econômicos,

começou a gastar infinito

em pensamento.

 

E ninguém avisa a gente

que amar, às vezes,

não começa como incêndio.

 

Às vezes começa como suspeita.

 

Uma suspeita elegante,

quase educada,

sentada no canto da noite

com um sorriso impossível de interrogar.

 

Depois cresce.

 

Não grita.

Não invade.

Não exige crachá de destino.

 

Apenas fica.

 

E ficando,

obriga todas as certezas antigas

a levantarem da cadeira.

 

Foi assim.

 

Algo em mim reconheceu algo em você

antes que qualquer explicação chegasse

com sapatos limpos

e discurso preparado.

 

E o reconhecimento é sempre perigoso,

porque não pede licença à memória.

 

Ele entra por baixo da porta,

como luz.

Atravessa as defesas,

como música.

Senta-se no peito,

como quem já conhecia a casa.

 

Talvez por isso

eu desconfie tanto dos limites.

 

Não dos limites necessários —

esses são nobres,

são cercas que protegem jardins,

são margens que impedem o rio

de virar desastre.

 

Mas dos limites arrogantes,

aqueles que se vestem de definitivo

só porque nunca foram contrariados

por um sentimento sério.

 

O amor verdadeiro

não destrói todos os limites.

 

Seria falta de educação

e péssima arquitetura.

 

Ele faz coisa mais difícil:

revela quais limites eram muros

e quais eram apenas medo

com uniforme de segurança.

 

Mostra que distância

é uma palavra respeitável,

mas não invencível.

 

Mostra que tempo

é antigo, sim,

mas às vezes envelheceu mal.

 

Mostra que a tristeza

tem subsolos profundos,

corredores úmidos,

lâmpadas cansadas,

mas mesmo ali

um nome pode acender

sem pedir licença ao escuro.

 

E então se entende:

 

há sentimentos que não sobem escadas;

atravessam andares.

 

Não pedem elevador.

Não consultam planta baixa.

Não respeitam a engenharia emocional

que construímos para não desabar.

 

Eles passam.

 

Passam pela infância do medo,

pela adolescência da dúvida,

pela maturidade desconfiada,

por aquele setor interno

onde guardamos as coisas

que juramos não sentir de novo.

 

Passam e deixam flores

em lugares indevidos.

 

O que é um abuso,

convenhamos.

 

Mas um abuso belíssimo.

 

Porque depois de certos encontros,

não voltamos exatamente ao que éramos.

 

Voltamos parecidos,

o que é ainda mais confuso.

 

A mesma voz.

O mesmo rosto.

A mesma rotina fingindo normalidade.

 

Mas alguma coisa em nós

passou a olhar para o horizonte

como quem reconhece uma possibilidade

onde antes havia apenas paisagem.

 

E talvez seja isso

que o amor faz de mais revolucionário.

 

Não promete céu.

Não resolve a vida.

Não organiza gavetas.

Não melhora, sozinho,

a pontualidade de ninguém.

 

Mas devolve ao futuro

uma cadeira à mesa.

 

Faz o coração,

esse funcionário tantas vezes demitido

por excesso de entusiasmo,

ser readmitido

com direito a crachá, janela

e uma planta pequena sobre a escrivaninha.

 

Não sei quem autorizou.

 

Talvez os deuses tenham mesmo errado a mira.

Talvez tenham acertado

e estejam até agora fingindo surpresa.

 

Deuses são vaidosos;

jamais confessam boa pontaria

quando podem parecer misteriosos.

 

Mas, se participaram disso,

que aprendam ao menos uma coisa:

 

não se brinca com dois humanos

no instante exato

em que ambos ainda conseguem

reconhecer beleza

sem transformá-la em posse.

 

Porque o amor mais raro

não é o que captura.

 

É o que chama

sem fechar a porta atrás.

 

Não é o que exige resposta imediata,

como um edital celestial

com prazo improrrogável.

 

É o que permanece aceso

sem incendiar a casa.

 

É lâmpada na janela,

não holofote no rosto.

 

É presença possível,

não sentença.

 

É dizer ao outro,

mesmo em silêncio:

 

há um lugar em mim

onde tua existência

não precisa se defender.

 

E isso,

num mundo tão apressado

em transformar tudo em medo,

já é quase uma forma de milagre.

 

Portanto,

se houver um limite

para o sentimento que une duas almas,

que ele seja este:

 

não ultrapassar a liberdade

de quem se ama.

 

Todo o resto

pode ser discutido

com o infinito.

 

A distância que apresente seus documentos.

O tempo que traga testemunhas.

A prudência que explique seus antecedentes.

O medo que pare de falar tão alto

sem ter sido chamado.

 

Porque aquilo que é verdadeiro

não precisa vencer ninguém.

 

Apenas continua.

 

Continua no intervalo das coisas,

no avesso dos dias,

no canto da boca

quando um pensamento sorri sozinho.

 

Continua como rio subterrâneo,

como raiz paciente,

como estrela que não faz alarde

porque sabe que luz demais

também pode assustar.

 

E se um dia esse amor

encontrar as duas mãos abertas,

que não venha como destino armado,

nem como ordem superior,

nem como decreto de algum deus

com excesso de tempo livre.

 

Que venha simples.

 

Livre.

 

Humano.

 

Com a beleza discreta

das coisas que não precisam provar

que são imensas.

 

Porque o universo,

apesar de todo o espetáculo,

ainda tem muito a aprender.

 

Ele entende de galáxias,

de explosões,

de abismos luminosos.

 

Mas talvez ainda não saiba

que o infinito mais difícil

não é o que cabe entre as estrelas.

 

É o que nasce

quando duas pessoas frágeis

se olham com verdade

e, sem prometer dominar o céu,

decidem cuidar

de um pequeno pedaço de terra

onde o amor possa respirar.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 30/10/2026
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