Quando a noite encosta a testa na janela
e o cansaço vem cobrar o dia inteiro,
basta ver teu rosto aceso à luz amarela
para o mundo perder o tom severo.
Teu abraço tem licença de chegada,
me desmonta a gravata e a resistência;
e a rotina, tão cansada e mal-humorada,
vira festa sem pedir antecedência.
Há café, roupa espalhada e algum atraso,
uma conta esquecida sobre a mesa;
mas teu beijo, quando invade o meu espaço,
faz do caos uma espécie de beleza.
Você ri quando eu reclamo do teu jeito
de roubar cobertor durante a noite;
eu protesto, por orgulho e por direito,
mas me achego antes que o frio volte.
E assim vamos, entre contas e desejos,
inventando eternidade no comum:
há amores que se explicam com lampejos,
o nosso incendeia dois e os torna um.