Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

 

Há amores que não começam na Terra.

 

Descem.

 

Vêm de algum lugar antigo

onde as estrelas ainda sabem

o nome secreto das almas,

onde o tempo não separa,

apenas prepara,

e o destino, antes de virar estrada,

é um brilho suspenso

nas mãos invisíveis do céu.

 

Esse amor nasceu alto.

 

Antes da voz,

antes do corpo,

antes do acaso

fingir que inventava o encontro.

 

Nasceu onde tudo é distância

e, ainda assim,

tudo se toca.

 

Atravessou noites,

camadas,

silêncios,

dimensões que a razão não alcança,

mundos que talvez só existam

para guardar aquilo

que ainda não encontrou passagem.

 

E mesmo assim veio.

 

Veio como luz procurando fresta.

Como rio procurando leito.

Como pássaro que não esquece

a direção da primavera.

 

Perdeu-se em calendários,

mudou de nome,

vestiu outras épocas,

atravessou vidas,

céus internos,

medos antigos,

estações erradas.

 

Mas não se apagou.

 

Porque certos amores

não dependem da proximidade

para permanecerem vivos.

 

Carregam em si

uma memória anterior ao encontro,

uma certeza sem documento,

um reconhecimento que acontece

antes que a boca saiba explicar.

 

E então, um dia,

depois de tanto espaço,

depois de tanta demora,

depois de tantas rotas invisíveis

desenhadas no escuro,

 

duas presenças se encontram.

 

Não como estranhos.

 

Como astros que finalmente descobrem

a órbita que procuravam.

 

E o coração entende,

com essa inteligência que não fala,

que há encontros que não são chegada:

são retorno.

 

Agora esse amor pede caminho.

 

Não exige.

Não invade.

Não força portas.

 

Pede.

 

Pede tempo limpo,

coragem serena,

verdade bastante

para não ser confundido

com sonho passageiro.

 

Pede mãos humanas

para realizar

o que talvez tenha sido escrito

em linguagem de estrela.

 

Pede corpo,

presença,

cuidado,

possibilidade.

 

Pede que a distância

deixe de ser destino

e se torne apenas

o último território

antes da aproximação.

 

Porque um amor assim

não quer ficar somente no céu.

 

Quer aprender a morar nos dias.

 

Quer atravessar a manhã,

sentar à mesa,

rir sem motivo,

dividir o peso,

acender a casa invisível

onde duas liberdades

possam respirar juntas.

 

Nasceu no alto, sim.

 

Mas agora quer chão.

 

Quer gesto.

Quer escolha.

Quer vida.

 

Quer deixar de ser constelação distante

e tornar-se caminho aceso

sob os pés de quem teve coragem

de reconhecer.

 

E se o universo aproximou

o que parecia impossível,

talvez não tenha sido para provar poder,

mas para perguntar, em silêncio:

 

agora que se encontraram,

saberão abrir passagem?

 

Porque o céu pode iniciar um amor.

 

Mas só dois corações,

livres e vivos,

podem permitir

que ele se realize.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 26/10/2026
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