Há amores que não começam na Terra.
Descem.
Vêm de algum lugar antigo
onde as estrelas ainda sabem
o nome secreto das almas,
onde o tempo não separa,
apenas prepara,
e o destino, antes de virar estrada,
é um brilho suspenso
nas mãos invisíveis do céu.
Esse amor nasceu alto.
Antes da voz,
antes do corpo,
antes do acaso
fingir que inventava o encontro.
Nasceu onde tudo é distância
e, ainda assim,
tudo se toca.
Atravessou noites,
camadas,
silêncios,
dimensões que a razão não alcança,
mundos que talvez só existam
para guardar aquilo
que ainda não encontrou passagem.
E mesmo assim veio.
Veio como luz procurando fresta.
Como rio procurando leito.
Como pássaro que não esquece
a direção da primavera.
Perdeu-se em calendários,
mudou de nome,
vestiu outras épocas,
atravessou vidas,
céus internos,
medos antigos,
estações erradas.
Mas não se apagou.
Porque certos amores
não dependem da proximidade
para permanecerem vivos.
Carregam em si
uma memória anterior ao encontro,
uma certeza sem documento,
um reconhecimento que acontece
antes que a boca saiba explicar.
E então, um dia,
depois de tanto espaço,
depois de tanta demora,
depois de tantas rotas invisíveis
desenhadas no escuro,
duas presenças se encontram.
Não como estranhos.
Como astros que finalmente descobrem
a órbita que procuravam.
E o coração entende,
com essa inteligência que não fala,
que há encontros que não são chegada:
são retorno.
Agora esse amor pede caminho.
Não exige.
Não invade.
Não força portas.
Pede.
Pede tempo limpo,
coragem serena,
verdade bastante
para não ser confundido
com sonho passageiro.
Pede mãos humanas
para realizar
o que talvez tenha sido escrito
em linguagem de estrela.
Pede corpo,
presença,
cuidado,
possibilidade.
Pede que a distância
deixe de ser destino
e se torne apenas
o último território
antes da aproximação.
Porque um amor assim
não quer ficar somente no céu.
Quer aprender a morar nos dias.
Quer atravessar a manhã,
sentar à mesa,
rir sem motivo,
dividir o peso,
acender a casa invisível
onde duas liberdades
possam respirar juntas.
Nasceu no alto, sim.
Mas agora quer chão.
Quer gesto.
Quer escolha.
Quer vida.
Quer deixar de ser constelação distante
e tornar-se caminho aceso
sob os pés de quem teve coragem
de reconhecer.
E se o universo aproximou
o que parecia impossível,
talvez não tenha sido para provar poder,
mas para perguntar, em silêncio:
agora que se encontraram,
saberão abrir passagem?
Porque o céu pode iniciar um amor.
Mas só dois corações,
livres e vivos,
podem permitir
que ele se realize.