Há quem acorde cedo
não para semear o próprio dia,
mas para espiar pela fresta
o jardim do vizinho.
Leva uma tesoura no bolso,
um sorriso de ocasião
e aquela coragem pequena
que só os covardes confundem com esperteza.
Corta uma flor daqui,
arranca uma ideia dali,
colhe uma frase ainda molhada de alma
e sai pela rua proclamando:
“Vejam, inventei a primavera!”
E há sempre quem aplauda,
porque o mundo, às vezes,
confunde perfume roubado
com jardim bem cuidado.
Mas a vida tem seus fiscais invisíveis.
A abelha sabe de onde veio o pólen.
A raiz conhece a mão que regou.
O sol, velho funcionário da verdade,
carimba todas as manhãs
aquilo que nasceu de verdade
e aquilo que apenas foi pendurado na vitrine.
O falso criador é um alfaiate de sombras:
costura pedaços dos outros,
ajusta na cintura da própria vaidade,
desfila pela praça
e ainda reclama
quando a roupa não tem alma.
É o papagaio de biblioteca,
repetindo frases nobres
com ar de filósofo cansado,
sem perceber que até o eco,
quando é honesto,
confessa que veio de outra voz.
É o ladrão de bússolas,
que rouba o instrumento
mas continua perdido.
É o pintor de fumaça,
que assina nuvens
e se espanta quando o vento
leva embora sua obra-prima.
Porque criar não é apenas juntar palavras bonitas.
Criar é atravessar a noite
sem alugar a lâmpada do outro.
É descer ao porão da própria alma,
enfrentar os ratos da dúvida,
abrir as janelas do medo
e sair de lá trazendo alguma coisa viva.
A integridade não faz espetáculo.
Não sobe no balcão.
Não contrata fanfarra.
Não pede legenda com letras douradas.
Ela simplesmente permanece.
Mora na palavra que não se vende,
no gesto que não se fantasia,
na consciência que não precisa apagar rastros,
na cabeça erguida de quem sabe
que não precisou diminuir ninguém
para parecer maior.
Há quem manipule versões
como quem embaralha cartas marcadas.
Há quem espalhe fofocas
como quem joga alpiste para corvos famintos.
Há quem torça a verdade
até ela parecer outra coisa,
como se a realidade fosse massa de pão
nas mãos de quem nunca aprendeu
a fazer alimento.
Mas a mentira, mesmo bem penteada,
tem caspa.
Pode usar perfume francês,
óculos de intelectual,
voz mansa de conselheiro
e pose de santo em dia de fotografia.
Ainda assim, uma hora sua costura abre.
E quando abre,
não sai luz.
Sai remendo.
A verdade, ao contrário,
nem sempre chega bonita.
Às vezes vem descalça,
suja de estrada,
com os joelhos ralados
e um silêncio mais forte
que todos os discursos.
Mas chega.
Chega como chuva sobre telhado quente.
Chega como carta atrasada que muda tudo.
Chega como sino antigo
tocando no centro da aldeia
para lembrar que a honra
não morreu:
apenas estava esperando
os barulhentos terminarem sua apresentação.
E então se vê
que os copiadores nunca roubaram a grandeza.
Roubaram apenas o molde.
Nunca tocaram a nascente.
Beberam em copo emprestado
e chamaram isso de oceano.
Porque há coisas que não se plagiam.
Não se plagia travessia.
Não se plagia cicatriz.
Não se plagia madrugada.
Não se plagia a mão tremendo
antes da primeira palavra verdadeira.
Pode-se copiar uma frase,
mas não o abismo que a pariu.
Pode-se imitar um estilo,
mas não o sangue secreto
que ensinou a alma a escrever.
Pode-se roubar uma flor,
mas não o inverno
que ensinou a raiz a ter paciência.
Por isso, segue.
Segue com tua ética limpa
como roupa estendida ao sol.
Segue com tua honra quieta,
sem precisar bater panelas na porta da verdade.
Segue com teus valores antigos,
esses que parecem fora de moda
até o mundo desabar
e todos lembrarem
que era sobre eles
que a casa ficava em pé.
Deixa que os falsos façam pose.
Deixa que os ecos ensaiem voz.
Deixa que os espelhos usados
vendam reflexos em promoção.
Quem nasceu para fonte
não precisa disputar poça.
E no fim,
quando cada máscara devolver
o rosto que tentou esconder,
quando cada flor voltar
ao jardim que conhecia seu nome,
quando cada palavra reencontrar
a alma que a escreveu,
haverá uma luz reservada
aos que não precisaram fingir grandeza
para permanecer de pé.
E então, sem grito,
sem vingança
e sem pressa,
a verdade fará o que sempre faz:
ficará.
Enquanto os que copiaram o caminho
descobrirão, tarde demais,
que jamais chegaram a lugar algum.
Apenas caminharam
dentro das pegadas dos outros,
com os próprios pés
ausentes.