Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

 

Há quem acorde cedo

não para semear o próprio dia,

mas para espiar pela fresta

o jardim do vizinho.

 

Leva uma tesoura no bolso,

um sorriso de ocasião

e aquela coragem pequena

que só os covardes confundem com esperteza.

 

Corta uma flor daqui,

arranca uma ideia dali,

colhe uma frase ainda molhada de alma

e sai pela rua proclamando:

“Vejam, inventei a primavera!”

 

E há sempre quem aplauda,

porque o mundo, às vezes,

confunde perfume roubado

com jardim bem cuidado.

 

Mas a vida tem seus fiscais invisíveis.

 

A abelha sabe de onde veio o pólen.

A raiz conhece a mão que regou.

O sol, velho funcionário da verdade,

carimba todas as manhãs

aquilo que nasceu de verdade

e aquilo que apenas foi pendurado na vitrine.

 

O falso criador é um alfaiate de sombras:

costura pedaços dos outros,

ajusta na cintura da própria vaidade,

desfila pela praça

e ainda reclama

quando a roupa não tem alma.

 

É o papagaio de biblioteca,

repetindo frases nobres

com ar de filósofo cansado,

sem perceber que até o eco,

quando é honesto,

confessa que veio de outra voz.

 

É o ladrão de bússolas,

que rouba o instrumento

mas continua perdido.

 

É o pintor de fumaça,

que assina nuvens

e se espanta quando o vento

leva embora sua obra-prima.

 

Porque criar não é apenas juntar palavras bonitas.

Criar é atravessar a noite

sem alugar a lâmpada do outro.

É descer ao porão da própria alma,

enfrentar os ratos da dúvida,

abrir as janelas do medo

e sair de lá trazendo alguma coisa viva.

 

A integridade não faz espetáculo.

Não sobe no balcão.

Não contrata fanfarra.

Não pede legenda com letras douradas.

 

Ela simplesmente permanece.

 

Mora na palavra que não se vende,

no gesto que não se fantasia,

na consciência que não precisa apagar rastros,

na cabeça erguida de quem sabe

que não precisou diminuir ninguém

para parecer maior.

 

Há quem manipule versões

como quem embaralha cartas marcadas.

Há quem espalhe fofocas

como quem joga alpiste para corvos famintos.

Há quem torça a verdade

até ela parecer outra coisa,

como se a realidade fosse massa de pão

nas mãos de quem nunca aprendeu

a fazer alimento.

 

Mas a mentira, mesmo bem penteada,

tem caspa.

 

Pode usar perfume francês,

óculos de intelectual,

voz mansa de conselheiro

e pose de santo em dia de fotografia.

 

Ainda assim, uma hora sua costura abre.

 

E quando abre,

não sai luz.

Sai remendo.

 

A verdade, ao contrário,

nem sempre chega bonita.

Às vezes vem descalça,

suja de estrada,

com os joelhos ralados

e um silêncio mais forte

que todos os discursos.

 

Mas chega.

 

Chega como chuva sobre telhado quente.

Chega como carta atrasada que muda tudo.

Chega como sino antigo

tocando no centro da aldeia

para lembrar que a honra

não morreu:

apenas estava esperando

os barulhentos terminarem sua apresentação.

 

E então se vê

que os copiadores nunca roubaram a grandeza.

Roubaram apenas o molde.

Nunca tocaram a nascente.

Beberam em copo emprestado

e chamaram isso de oceano.

 

Porque há coisas que não se plagiam.

 

Não se plagia travessia.

Não se plagia cicatriz.

Não se plagia madrugada.

Não se plagia a mão tremendo

antes da primeira palavra verdadeira.

 

Pode-se copiar uma frase,

mas não o abismo que a pariu.

Pode-se imitar um estilo,

mas não o sangue secreto

que ensinou a alma a escrever.

Pode-se roubar uma flor,

mas não o inverno

que ensinou a raiz a ter paciência.

 

Por isso, segue.

 

Segue com tua ética limpa

como roupa estendida ao sol.

Segue com tua honra quieta,

sem precisar bater panelas na porta da verdade.

Segue com teus valores antigos,

esses que parecem fora de moda

até o mundo desabar

e todos lembrarem

que era sobre eles

que a casa ficava em pé.

 

Deixa que os falsos façam pose.

Deixa que os ecos ensaiem voz.

Deixa que os espelhos usados

vendam reflexos em promoção.

 

Quem nasceu para fonte

não precisa disputar poça.

 

E no fim,

quando cada máscara devolver

o rosto que tentou esconder,

quando cada flor voltar

ao jardim que conhecia seu nome,

quando cada palavra reencontrar

a alma que a escreveu,

 

haverá uma luz reservada

aos que não precisaram fingir grandeza

para permanecer de pé.

 

E então, sem grito,

sem vingança

e sem pressa,

 

a verdade fará o que sempre faz:

 

ficará.

 

Enquanto os que copiaram o caminho

descobrirão, tarde demais,

que jamais chegaram a lugar algum.

 

Apenas caminharam

dentro das pegadas dos outros,

com os próprios pés

ausentes.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 21/10/2026
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