Tem uma versão da minha vida
que não consta em documento:
nela, o café demora mais
e eu esqueço de olhar o tempo.
Às vezes, ela invade esta.
Estou no mercado, distraído,
e quase levo alguma coisa
que nem é do meu feitio.
Depois, rio sozinho,
devolvo o pacote à prateleira.
É curioso ter lembranças
do que nunca foi terça-feira.
No rádio, começa uma música.
Eu aumento sem perceber.
Certas vontades são discretas:
aprendem a cantar sem dizer.