Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
Capa Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Contato Links
Textos

O amor chegou cedo demais

para um coração que já estava atrasado.

E foi esse o problema.

Quando a esperança passa muito tempo

sentada numa sala de espera,

qualquer porta que se abre

parece anúncio de embarque.

Então o coração correu.

Quis saber o fim

antes de terminar o começo,

transformou coincidências em destino,

silêncios em respostas

e dois passos bonitos

numa viagem inteira.

O amor, coitado,

ainda estava aprendendo nossos nomes.

Havia tanto para acontecer devagar:

o primeiro hábito descoberto,

a primeira ausência sentida sem medo,

o primeiro defeito que não estraga nada,

a primeira manhã em que o encanto

sobrevive à falta de poesia.

Porque paixão é rápida.

Acende todas as luzes da casa

e depois pergunta

onde fica o interruptor.

Amor não.

Amor precisa conhecer os cômodos.

Precisa descobrir

qual silêncio significa paz

e qual está pedindo colo;

onde cada um guarda suas cicatrizes,

como prefere o café

e quais tempestades

não devem ser discutidas antes do almoço.

Há coisas que só ficam doces

quando ninguém as força.

Certos sentimentos precisam do sol

dos dias comuns,

da chuva inevitável das dúvidas,

de alguma distância,

de algumas noites mal dormidas

e da coragem de continuar ali

quando já não há fogos de artifício

para ajudar na iluminação.

Foi então que compreendi:

amar não era correr para chegar.

Era permanecer tempo suficiente

para que aquilo que chegara como vertigem

aprendesse a ter raízes.

Deixar o desejo ganhar profundidade,

a admiração encontrar realidade,

a vontade perder a pressa

e o coração descobrir

que intensidade e urgência

não são exatamente a mesma coisa.

O amor amadurece em segredo.

Enquanto pensamos que nada acontece,

ele ganha cor,

densidade,

perfume,

memória.

Um dia, quase sem aviso,

olhamos para o outro

e percebemos que já não queremos apenas possuí-lo no instante.

Queremos conhecê-lo no tempo.

E talvez seja esse

o ponto exato da maturação:

quando o coração deixa de perguntar

“quando será meu?”

e começa a dizer:

“fica o tempo necessário

para que sejamos verdadeiros.”

Porque colher cedo demais

não torna o fruto mais nosso.

Só rouba dele

aquilo que ainda estava tentando se tornar.

E o amor, quando encontra sua estação,

não precisa ser arrancado.

Ele quase cai sozinho

nas mãos certas.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 16/10/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários
Capa Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Contato Links