O amor chegou cedo demais
para um coração que já estava atrasado.
E foi esse o problema.
Quando a esperança passa muito tempo
sentada numa sala de espera,
qualquer porta que se abre
parece anúncio de embarque.
Então o coração correu.
Quis saber o fim
antes de terminar o começo,
transformou coincidências em destino,
silêncios em respostas
e dois passos bonitos
numa viagem inteira.
O amor, coitado,
ainda estava aprendendo nossos nomes.
Havia tanto para acontecer devagar:
o primeiro hábito descoberto,
a primeira ausência sentida sem medo,
o primeiro defeito que não estraga nada,
a primeira manhã em que o encanto
sobrevive à falta de poesia.
Porque paixão é rápida.
Acende todas as luzes da casa
e depois pergunta
onde fica o interruptor.
Amor não.
Amor precisa conhecer os cômodos.
Precisa descobrir
qual silêncio significa paz
e qual está pedindo colo;
onde cada um guarda suas cicatrizes,
como prefere o café
e quais tempestades
não devem ser discutidas antes do almoço.
Há coisas que só ficam doces
quando ninguém as força.
Certos sentimentos precisam do sol
dos dias comuns,
da chuva inevitável das dúvidas,
de alguma distância,
de algumas noites mal dormidas
e da coragem de continuar ali
quando já não há fogos de artifício
para ajudar na iluminação.
Foi então que compreendi:
amar não era correr para chegar.
Era permanecer tempo suficiente
para que aquilo que chegara como vertigem
aprendesse a ter raízes.
Deixar o desejo ganhar profundidade,
a admiração encontrar realidade,
a vontade perder a pressa
e o coração descobrir
que intensidade e urgência
não são exatamente a mesma coisa.
O amor amadurece em segredo.
Enquanto pensamos que nada acontece,
ele ganha cor,
densidade,
perfume,
memória.
Um dia, quase sem aviso,
olhamos para o outro
e percebemos que já não queremos apenas possuí-lo no instante.
Queremos conhecê-lo no tempo.
E talvez seja esse
o ponto exato da maturação:
quando o coração deixa de perguntar
“quando será meu?”
e começa a dizer:
“fica o tempo necessário
para que sejamos verdadeiros.”
Porque colher cedo demais
não torna o fruto mais nosso.
Só rouba dele
aquilo que ainda estava tentando se tornar.
E o amor, quando encontra sua estação,
não precisa ser arrancado.
Ele quase cai sozinho
nas mãos certas.