Vivemos no tempo em que máquinas aprendem depressa demais
e pessoas levam quarenta minutos para decidir se respondem “também senti sua falta”.
Há algoritmos capazes de prever o que vamos comprar, ouvir, desejar,
mas nenhum deles ainda descobriu por que uma pessoa específica bagunça todas as estatísticas.
As redes sabem onde estivemos, com quem falamos, o que curtimos às duas da manhã;
felizmente, continuam incompetentes para medir o estrago de um olhar presencial.
Talvez seja por isso que ainda vale a pena amar.
Num mundo que pede senha, biometria, autenticação em dois fatores
e concordância com termos que ninguém jamais leu,
há alguém diante de quem a gente simplesmente abre.
Sem firewall.
Sem backup.
Com um histórico constrangedoramente completo.
A superinteligência talvez um dia resolva o clima, a energia, a velhice
e, com sorte, descubra por que os cabos do carregador desaparecem dentro de casa.
Mas duvido que consiga explicar
por que uma mensagem de quatro palavras pode melhorar uma semana inteira.
“Queria estar com você.”
Pronto.
Bilhões de parâmetros derrotados por vinte letras.
Enquanto o mundo discute avatares, realidades sintéticas e versões digitais de nós mesmos,
o corpo continua antiquado: arrepia, perde o sono, sente falta, aproxima a cadeira.
Ainda bem.
Eu desconfiaria profundamente de um futuro
em que amar viesse com atualização automática e correção de bugs.
Quero algum erro.
Uma imprudência não prevista pelo sistema,
uma conversa que ultrapasse o limite do plano,
uma madrugada que o relatório de produtividade considere absolutamente indefensável.
Porque talvez liberdade, daqui para frente,
seja encontrar alguém que não queira nos otimizar.
Alguém que conheça nossas versões anteriores,
os defeitos ainda sem patch, as falhas recorrentes, os arquivos mal resolvidos,
e não clique em “substituir por uma versão melhor”.
Apenas permaneça.
E se um dia as máquinas realmente souberem tudo,
que encontrem nos registros uma anomalia impossível de corrigir:
duas pessoas que poderiam ter escolhido qualquer coisa,
mas, contra probabilidades, tendências, métricas
e excelentes recomendações do algoritmo,
continuaram escolhendo uma à outra.