Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

Dizem que era venusta.

Não porque tivesse aprendido

a agradar aos espelhos,

mas porque levava no rosto

a claridade de quem ainda esperava

coisas boas da vida.

Era calicoma:

os cabelos vinham atrás dela

como uma pequena procissão de vento,

desobedientes, luminosos,

alegres demais

para qualquer penteado definitivo.

Era caliprósopa:

não apenas bela de rosto,

mas dessas pessoas

cuja expressão parece dizer

que o mundo, apesar de tudo,

ainda merece uma segunda tentativa.

Seus olhos eram quase caliómatas,

se me permitem a ousadia do vocábulo:

tinham a rara habilidade

de olhar uma estrada vazia

e nela descobrir

uma festa que ainda não começara.

Ela caminhava.

E havia em seu passo

qualquer coisa de garboso,

um ritmo elegante

que não pedia licença ao chão.

As árvores,

sempre tão antigas,

inclinavam-se um pouco.

As flores,

naturalmente indiscretas,

abriam-se antes da hora.

Até os pássaros,

especialistas em exageros,

cantavam como se tivessem recebido

uma excelente notícia.

Ela era eumorfa,

mas não da maneira imóvel das estátuas.

Sua harmonia era viva:

estava no gesto de erguer o vestido

para atravessar uma poça,

no riso que escapava

quando o vento lhe roubava o chapéu,

na forma quase infantil

como recolhia pedras bonitas

sem saber para que serviriam.

Era apolínea à distância,

serena como uma figura clássica;

mas, de perto,

tinha o imprevisto das mulheres reais:

ria alto,

perdia fitas,

esquecia luvas,

conversava com cães desconhecidos

e acreditava que toda estrada

devia terminar

em alguma espécie de música.

Seu corpo era escultural,

é verdade,

mas possuía uma graça

que o mármore jamais compreenderia:

movia-se.

Tinha calor,

vontade,

pressa nenhuma

e uma secreta abundância

de futuros.

Era pulcra sem rigidez,

harmônica sem cálculo,

formosa sem esforço.

E quando passava

pelos pequenos vilarejos,

alguma janela se abria,

alguma criança corria para fora,

algum velho recordava

que ainda sabia sorrir.

Não porque ela prometesse milagres.

Ela apenas caminhava

como quem não havia desistido

de encontrá-los.

Na curva mais alta da estrada,

onde o céu parecia repousar

sobre os campos,

ela parou.

O sol tocou-lhe os cabelos.

O vento levantou seu vestido

com a delicadeza cerimonial

de um criado antigo.

E toda a paisagem,

por um instante,

pareceu calíspora

semente de beleza,

promessa de florescimento.

Ela respirou profundamente.

Havia vivido perdas,

como todos.

Havia conhecido portas fechadas,

silêncios inúteis,

amores que chegaram

com a pontualidade errada.

Mas não carregava os fracassos

como epitáfios.

Transformava-os em estrada.

Talvez fosse essa

a sua beleza mais rara:

ela não era apenas bela.

Era eufórica sem excesso,

alígera no espírito,

jucunda na presença,

auroral no modo de recomeçar.

Tinha fome de manhãs.

Gostava das mesas fartas,

dos livros amarelados,

das músicas tocadas em vitrolas,

dos vestidos que giravam,

das cartas guardadas

e das viagens cuja melhor parte

ainda não aparecia no mapa.

Ao vê-la seguir,

ninguém pensava apenas

em seu rosto,

em seus cabelos,

em suas formas

ou na elegância de seu passo.

Pensava-se na vida.

Na vida ainda possível.

Na alegria escondida

atrás da próxima colina.

Na vontade quase esquecida

de comprar flores sem motivo,

abrir as janelas,

vestir a melhor roupa

e sair ao encontro

de alguma felicidade

que talvez estivesse igualmente

caminhando em nossa direção.

Porque certas mulheres

não atravessam apenas estradas.

Elas devolvem às estradas

a vontade de levar alguém

a algum lugar.

E ela seguia,

venusta,

calicoma,

garbosa,

auroral,

enquanto o mundo,

um pouco mais jovem depois de vê-la,

abria diante de seus passos

a mais graciosa de todas as paisagens:

o amanhã.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 30/09/2026
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