Dizem que era venusta.
Não porque tivesse aprendido
a agradar aos espelhos,
mas porque levava no rosto
a claridade de quem ainda esperava
coisas boas da vida.
Era calicoma:
os cabelos vinham atrás dela
como uma pequena procissão de vento,
desobedientes, luminosos,
alegres demais
para qualquer penteado definitivo.
Era caliprósopa:
não apenas bela de rosto,
mas dessas pessoas
cuja expressão parece dizer
que o mundo, apesar de tudo,
ainda merece uma segunda tentativa.
Seus olhos eram quase caliómatas,
se me permitem a ousadia do vocábulo:
tinham a rara habilidade
de olhar uma estrada vazia
e nela descobrir
uma festa que ainda não começara.
Ela caminhava.
E havia em seu passo
qualquer coisa de garboso,
um ritmo elegante
que não pedia licença ao chão.
As árvores,
sempre tão antigas,
inclinavam-se um pouco.
As flores,
naturalmente indiscretas,
abriam-se antes da hora.
Até os pássaros,
especialistas em exageros,
cantavam como se tivessem recebido
uma excelente notícia.
Ela era eumorfa,
mas não da maneira imóvel das estátuas.
Sua harmonia era viva:
estava no gesto de erguer o vestido
para atravessar uma poça,
no riso que escapava
quando o vento lhe roubava o chapéu,
na forma quase infantil
como recolhia pedras bonitas
sem saber para que serviriam.
Era apolínea à distância,
serena como uma figura clássica;
mas, de perto,
tinha o imprevisto das mulheres reais:
ria alto,
perdia fitas,
esquecia luvas,
conversava com cães desconhecidos
e acreditava que toda estrada
devia terminar
em alguma espécie de música.
Seu corpo era escultural,
é verdade,
mas possuía uma graça
que o mármore jamais compreenderia:
movia-se.
Tinha calor,
vontade,
pressa nenhuma
e uma secreta abundância
de futuros.
Era pulcra sem rigidez,
harmônica sem cálculo,
formosa sem esforço.
E quando passava
pelos pequenos vilarejos,
alguma janela se abria,
alguma criança corria para fora,
algum velho recordava
que ainda sabia sorrir.
Não porque ela prometesse milagres.
Ela apenas caminhava
como quem não havia desistido
de encontrá-los.
Na curva mais alta da estrada,
onde o céu parecia repousar
sobre os campos,
ela parou.
O sol tocou-lhe os cabelos.
O vento levantou seu vestido
com a delicadeza cerimonial
de um criado antigo.
E toda a paisagem,
por um instante,
pareceu calíspora
semente de beleza,
promessa de florescimento.
Ela respirou profundamente.
Havia vivido perdas,
como todos.
Havia conhecido portas fechadas,
silêncios inúteis,
amores que chegaram
com a pontualidade errada.
Mas não carregava os fracassos
como epitáfios.
Transformava-os em estrada.
Talvez fosse essa
a sua beleza mais rara:
ela não era apenas bela.
Era eufórica sem excesso,
alígera no espírito,
jucunda na presença,
auroral no modo de recomeçar.
Tinha fome de manhãs.
Gostava das mesas fartas,
dos livros amarelados,
das músicas tocadas em vitrolas,
dos vestidos que giravam,
das cartas guardadas
e das viagens cuja melhor parte
ainda não aparecia no mapa.
Ao vê-la seguir,
ninguém pensava apenas
em seu rosto,
em seus cabelos,
em suas formas
ou na elegância de seu passo.
Pensava-se na vida.
Na vida ainda possível.
Na alegria escondida
atrás da próxima colina.
Na vontade quase esquecida
de comprar flores sem motivo,
abrir as janelas,
vestir a melhor roupa
e sair ao encontro
de alguma felicidade
que talvez estivesse igualmente
caminhando em nossa direção.
Porque certas mulheres
não atravessam apenas estradas.
Elas devolvem às estradas
a vontade de levar alguém
a algum lugar.
E ela seguia,
venusta,
calicoma,
garbosa,
auroral,
enquanto o mundo,
um pouco mais jovem depois de vê-la,
abria diante de seus passos
a mais graciosa de todas as paisagens:
o amanhã.