Desde que o homem construiu muros,
aprendeu também a domar o vento.
Guardou águas, animais, alimentos
mas nunca soube conter o próprio fogo.
Ergueu preces ao trovão,
cantou para o sol e para o medo,
inventou deuses e nomes
para dar forma ao que o ultrapassava.
Mais tarde veio o verbo,
e com ele as leis,
as regras, as rédeas
mas o coração jamais assinou tratados.
A paixão, essa força indócil,
escapa pelos poros do pensamento.
Não se doma, apenas se disfarça,
como o rio que finge aceitar a represa.
Os sentidos, cúmplices do impossível,
inventam memórias do que nunca tocaram
a pele que não sentem,
o aroma que não respiram,
a voz que apenas imaginam.
E é nesse vazio,
onde o desejo não encontra corpo,
que a paixão mostra seu rosto mais puro
inexplicável, inteira, divina.
Nada há que a contenha:
nem ciência, nem prece,
nem esquecimento.
Ela queima o que toca,
purifica o que destrói,
e deixa, no fim,
a doce dor
de ter sido viva demais.