Só um coração romântico
pediria que se escrevesse uma carta.
E só um coração verdadeiramente apaixonado
teria coragem de escrevê-la.
O tempo atropelou o romantismo
em nome da pressa e da máquina,
mas nós, dois apaixonados,
ainda sabemos que o amor tem caligrafia
e que cada palavra é um sopro da alma.
Hoje te escrevo longamente,
porque meu amor já não se expande em todas as direções:
ele se concentra em ti,
e quanto mais se recolhe,
mais imenso se torna.
Conheceu o gosto de seu igual,
e por isso arde
independente, impetuoso, inconsequente,
esse fogo que leva ao êxtase e à loucura,
ao paraíso e à perdição.
Mas o amor também é plenitude,
embora concorra com a razão
que lhe corta as asas e o acorrenta
ao chão duro das obrigações.
Não é falta de calor, nem de desejo,
o que me distancia de ti
é a necessidade de cumprir o dever,
de honrar a palavra,
de proteger os que confiam em mim.
E assim, o amor luta contra o próprio amor,
sacrificando o paraíso de estar contigo
em nome de outro amor, que é dever.
Tu és, então, meu carrasco e meu anjo,
meu paraíso no inferno,
minha razão de viver,
meu desejo de morrer.
Morrer para em espírito te encontrar,
ser teu obsessor de amor,
e nunca mais me separar de ti.
Minha vida sem ti é sonho e vigília,
noite e aurora ao mesmo tempo.
Durmo ao teu lado na memória,
enquanto o mundo me mantém desperto.
Vivo na dor, mas o amor é meu anestésico;
é o punhal e o bálsamo,
a ferida e o consolo.
E enquanto espero a primavera,
é teu perfume que procuro nas flores
tua presença disfarçada no vento.
Amo-te.
E, se há justiça no céu,
ama-me também
nem que seja
no silêncio das estrelas.