Não chegamos cedo um ao outro.
Chegamos quando já sabíamos que intensidade não se mede pela pressa.
Cada um trazia uma vida inteira,
e ainda assim havia espaço para uma terceira começar.
Eu sabia: ninguém deveria chegar incompleto ao amor; contigo aprendi que amar ainda pode nos ampliar.
Já havia feito as pazes com o que não aconteceu; em nós descobri um futuro sem contas com o passado.
Não queria promessas maiores que a própria vida; quis uma verdade grande o bastante para atravessá-la.
Escolhi-te sem a febre de quem teme perder; fiquei com a calma de quem encontrou onde crescer.
Quero teu riso quando o mundo exagerar sua importância; quero tua lucidez quando o amor ensaiar algum drama.
Quero desejar-te depois de conhecer teus hábitos; quero surpresa até no gesto que eu souber de cor.
Quero que os anos nos mudem sem pedir licença; quero que a intimidade jamais nos dê por concluídos.
Se a memória um dia começar a apagar detalhes; que o corpo guarde o que o tempo não soube levar.
Deixarei sempre alguma coisa por fazer contigo; guardarei ao menos um amanhã ainda sem destino.
Agora entendo o paradoxo que antes me escapava: amar-te é querer o amanhã sem apressar o fim de hoje.
Não quero vencer o tempo.
Quero apenas que, quando ele vier nos procurar,
ainda encontre alguma coisa nossa
marcada para amanhã.