Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
Capa Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Contato Links
Textos

Ela se foi.

E o mais estranho

não foi a porta fechando.

Foi não entender.

Conhecia-se nela

o jeito de calar,

a hora exata do sorriso,

o medo escondido atrás da ironia,

até aquelas pequenas tristezas

que ela mesma fingia não ter.

Conhecia-se tanto dela

que às vezes parecia possível

consultá-la para descobrir

quem se era.

Talvez por isso a partida

tenha doído num lugar

que a anatomia ainda não catalogou.

Não era peito.

Não era memória.

Não era exatamente saudade.

Era mais fundo.

Uma espécie de órgão clandestino

que só apareceu

quando começou a doer.

Foram examinadas as lembranças,

revistos os últimos gestos,

interrogados os silêncios.

Nada conclusivo.

A dor, aparentemente,

recusava-se a colaborar

com o diagnóstico.

Tinha todos os sintomas

e nenhuma educação científica.

Mas vai passar.

Não porque aquilo tenha sido pequeno.

Certas coisas passam

justamente porque foram enormes.

O tempo não apaga.

É menos ambicioso que isso.

Apenas ensina a dor

a ocupar menos espaço.

Até que um dia

a ausência ainda estará ali,

mas já não parecerá

uma emergência.

Será apenas uma cicatriz

com excelente memória

e nenhuma autoridade

sobre o futuro

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 02/09/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários
Capa Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Contato Links