Ela se foi.
E o mais estranho
não foi a porta fechando.
Foi não entender.
Conhecia-se nela
o jeito de calar,
a hora exata do sorriso,
o medo escondido atrás da ironia,
até aquelas pequenas tristezas
que ela mesma fingia não ter.
Conhecia-se tanto dela
que às vezes parecia possível
consultá-la para descobrir
quem se era.
Talvez por isso a partida
tenha doído num lugar
que a anatomia ainda não catalogou.
Não era peito.
Não era memória.
Não era exatamente saudade.
Era mais fundo.
Uma espécie de órgão clandestino
que só apareceu
quando começou a doer.
Foram examinadas as lembranças,
revistos os últimos gestos,
interrogados os silêncios.
Nada conclusivo.
A dor, aparentemente,
recusava-se a colaborar
com o diagnóstico.
Tinha todos os sintomas
e nenhuma educação científica.
Mas vai passar.
Não porque aquilo tenha sido pequeno.
Certas coisas passam
justamente porque foram enormes.
O tempo não apaga.
É menos ambicioso que isso.
Apenas ensina a dor
a ocupar menos espaço.
Até que um dia
a ausência ainda estará ali,
mas já não parecerá
uma emergência.
Será apenas uma cicatriz
com excelente memória
e nenhuma autoridade
sobre o futuro