Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

O que se move por dentro

paralisa o que poderia mover-se por fora.

É uma lei que Newton esqueceu,

talvez porque maçãs

sejam criaturas emocionalmente simples.

Caem.

Nós, não.

Nós pensamos na queda,

calculamos a altura,

consultamos experiências anteriores,

imaginamos o chão,

a vergonha,

as testemunhas,

e permanecemos na árvore

chamando aquilo de maturidade.

Com o amor acontece pior.

Por dentro,

há cavalos atravessando fronteiras,

navios deixando portos,

continentes se aproximando

com absoluta irresponsabilidade geológica.

Por fora,

uma pessoa olha o telefone

e decide não mandar:

“Oi.”

Duas letras.

A civilização construiu catedrais,

atravessou oceanos,

pisou na Lua,

mas diante de duas letras

há quem precise

de três dias úteis.

O coração, entretanto,

não respeita expediente.

Ele chega cedo,

fica depois do horário,

trabalha aos domingos

e mantém uma administração paralela

da qual a razão

raramente recebe as atas.

É por isso que às vezes

alguém está sentado numa sala

aparentemente tranquilo,

enquanto por dentro

uma cidade inteira

troca de endereço.

Você entra no pensamento

e os móveis mudam de lugar.

Uma lembrança sua

abre uma janela.

Seu nome, dito por acaso,

altera a temperatura.

E basta imaginar

que você está longe

para o corpo descobrir

que distância também pesa.

Então surge aquela vontade:

ir.

Não para algum lugar.

Para você.

O que é muito mais complicado,

porque lugares não perguntam

o que sentimos quando chegamos.

Você perguntaria.

Talvez nem com palavras.

E certas perguntas feitas pelos olhos

possuem a desagradável eficiência

de dispensar qualquer mentira.

Por isso o corpo hesita.

Não é que falte desejo.

Às vezes existe desejo demais.

O rio não deixa de correr

porque tem pouca água.

Às vezes transborda

e exatamente por isso

não sabe onde passar.

Talvez seja essa

uma das ironias mais delicadas do amor:

querer tanto aproximar-se

que por alguns instantes

a própria vontade

se transforma em distância.

Mas há esperança.

Porque nenhuma imobilidade

é verdadeiramente imóvel

quando alguma coisa

já começou a caminhar por dentro.

Primeiro vai o pensamento.

Depois a saudade.

Depois aquela coragem pequena,

quase ridícula,

que coloca os pés no chão

sem fazer discurso algum.

E um dia,

quando a razão estiver distraída,

quando o medo estiver ocupado

redigindo mais um parecer contrário,

o corpo simplesmente levanta.

Sem trombetas.

Sem heroísmo.

Talvez até fingindo

que não aconteceu nada demais.

E atravessa a sala.

A rua.

A cidade.

A própria hesitação.

Até descobrir

uma coisa que o coração

tentava explicar desde o início:

há movimentos

que começam dentro

porque precisam de tempo

para ensinar o resto de nós

a chegar.

E talvez amar seja isso:

sentir alguém tão profundamente

que até a nossa paralisia

já esteja indo

em sua direção.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 24/08/2026
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