O que se move por dentro
paralisa o que poderia mover-se por fora.
É uma lei que Newton esqueceu,
talvez porque maçãs
sejam criaturas emocionalmente simples.
Caem.
Nós, não.
Nós pensamos na queda,
calculamos a altura,
consultamos experiências anteriores,
imaginamos o chão,
a vergonha,
as testemunhas,
e permanecemos na árvore
chamando aquilo de maturidade.
Com o amor acontece pior.
Por dentro,
há cavalos atravessando fronteiras,
navios deixando portos,
continentes se aproximando
com absoluta irresponsabilidade geológica.
Por fora,
uma pessoa olha o telefone
e decide não mandar:
“Oi.”
Duas letras.
A civilização construiu catedrais,
atravessou oceanos,
pisou na Lua,
mas diante de duas letras
há quem precise
de três dias úteis.
O coração, entretanto,
não respeita expediente.
Ele chega cedo,
fica depois do horário,
trabalha aos domingos
e mantém uma administração paralela
da qual a razão
raramente recebe as atas.
É por isso que às vezes
alguém está sentado numa sala
aparentemente tranquilo,
enquanto por dentro
uma cidade inteira
troca de endereço.
Você entra no pensamento
e os móveis mudam de lugar.
Uma lembrança sua
abre uma janela.
Seu nome, dito por acaso,
altera a temperatura.
E basta imaginar
que você está longe
para o corpo descobrir
que distância também pesa.
Então surge aquela vontade:
ir.
Não para algum lugar.
Para você.
O que é muito mais complicado,
porque lugares não perguntam
o que sentimos quando chegamos.
Você perguntaria.
Talvez nem com palavras.
E certas perguntas feitas pelos olhos
possuem a desagradável eficiência
de dispensar qualquer mentira.
Por isso o corpo hesita.
Não é que falte desejo.
Às vezes existe desejo demais.
O rio não deixa de correr
porque tem pouca água.
Às vezes transborda
e exatamente por isso
não sabe onde passar.
Talvez seja essa
uma das ironias mais delicadas do amor:
querer tanto aproximar-se
que por alguns instantes
a própria vontade
se transforma em distância.
Mas há esperança.
Porque nenhuma imobilidade
é verdadeiramente imóvel
quando alguma coisa
já começou a caminhar por dentro.
Primeiro vai o pensamento.
Depois a saudade.
Depois aquela coragem pequena,
quase ridícula,
que coloca os pés no chão
sem fazer discurso algum.
E um dia,
quando a razão estiver distraída,
quando o medo estiver ocupado
redigindo mais um parecer contrário,
o corpo simplesmente levanta.
Sem trombetas.
Sem heroísmo.
Talvez até fingindo
que não aconteceu nada demais.
E atravessa a sala.
A rua.
A cidade.
A própria hesitação.
Até descobrir
uma coisa que o coração
tentava explicar desde o início:
há movimentos
que começam dentro
porque precisam de tempo
para ensinar o resto de nós
a chegar.
E talvez amar seja isso:
sentir alguém tão profundamente
que até a nossa paralisia
já esteja indo
em sua direção.