Há dias em que a distância
não se mede em quilômetros.
Mede-se naquela vontade absurda
de atravessar a cidade,
o estado,
o mapa inteiro,
e talvez algumas leis da física,
só para chegar perto de você
e fingir, com admirável dignidade,
que eu estava passando por ali.
O coração, nesses dias,
aperta.
Não dramaticamente,
ele já tem idade para evitar escândalos,
mas com aquela competência silenciosa
das coisas que sabem exatamente
onde doer.
Então penso em ir.
O pensamento levanta,
veste o casaco,
pega as chaves,
confere o caminho.
O corpo, porém,
permanece sentado.
É extraordinário.
Dentro de mim,
Aníbal atravessa os Alpes com elefantes;
fora de mim,
não consigo atravessar a sala.
Há revoluções inteiras
que fracassam por causa de uma porta.
A coragem comparece, claro.
Mas aparece com óculos,
uma pasta de documentos
e argumentos muito sensatos
sobre a inconveniência do horário,
a complexidade das circunstâncias
e a necessidade histórica
de não fazer nenhuma besteira.
Covardia jamais teve
um departamento de relações públicas
tão eficiente.
E assim
o que se move por dentro
paralisa o que poderia mover-se por fora.
O peito acelera,
as pernas desistem,
a razão convoca uma assembleia,
o estômago declara estado de emergência
e o corpo inteiro entra naquela espécie
de colapso administrativo
que os poetas, por economia,
chamam de saudade.
Eu chamaria de amor,
mas amor é uma palavra
que adquiriu péssima reputação
nas mãos de gente apressada.
Prefiro dizer:
é você fazendo falta
com uma precisão quase científica.
Porque não é qualquer ausência.
Há milhões de pessoas
que não estão aqui neste instante
e nenhuma delas
me causa o menor problema.
Você, ao contrário,
consegue não estar
com uma presença impressionante.
Talento raro.
E talvez seja isso
o que mais me comove:
descobrir que alguém pode estar longe
e ainda assim alterar
a pressão atmosférica de um quarto.
Pode mudar o peso das horas.
Pode transformar uma tarde comum
num argumento filosófico
contra a geografia.
Mas passa.
Não você.
O aperto.
Porque o coração também aprende
que distância não é sentença,
é apenas espaço.
E espaço, desde os fenícios,
serve principalmente
para ser atravessado.
Um dia, portanto,
as pernas haverão de receber
a notícia que o peito já sabe.
A porta deixará de parecer
uma fronteira metafísica.
As chaves serão apenas chaves.
E toda essa monumental arquitetura
de prudência, medo e compostura
descobrirá, um pouco constrangida,
que bastava levantar.
Até lá,
há uma coisa curiosamente bonita
em sentir assim:
se meu corpo ainda hesita,
alguma coisa em mim
já partiu.
E talvez o amor seja exatamente isso:
chegar primeiro por dentro
e passar algum tempo
esperando
que o resto de nós
tenha coragem de acompanhar.