Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

Há dias em que a distância

não se mede em quilômetros.

Mede-se naquela vontade absurda

de atravessar a cidade,

o estado,

o mapa inteiro,

e talvez algumas leis da física,

só para chegar perto de você

e fingir, com admirável dignidade,

que eu estava passando por ali.

O coração, nesses dias,

aperta.

Não dramaticamente,

ele já tem idade para evitar escândalos,

mas com aquela competência silenciosa

das coisas que sabem exatamente

onde doer.

Então penso em ir.

O pensamento levanta,

veste o casaco,

pega as chaves,

confere o caminho.

O corpo, porém,

permanece sentado.

É extraordinário.

Dentro de mim,

Aníbal atravessa os Alpes com elefantes;

fora de mim,

não consigo atravessar a sala.

Há revoluções inteiras

que fracassam por causa de uma porta.

A coragem comparece, claro.

Mas aparece com óculos,

uma pasta de documentos

e argumentos muito sensatos

sobre a inconveniência do horário,

a complexidade das circunstâncias

e a necessidade histórica

de não fazer nenhuma besteira.

Covardia jamais teve

um departamento de relações públicas

tão eficiente.

E assim

o que se move por dentro

paralisa o que poderia mover-se por fora.

O peito acelera,

as pernas desistem,

a razão convoca uma assembleia,

o estômago declara estado de emergência

e o corpo inteiro entra naquela espécie

de colapso administrativo

que os poetas, por economia,

chamam de saudade.

Eu chamaria de amor,

mas amor é uma palavra

que adquiriu péssima reputação

nas mãos de gente apressada.

Prefiro dizer:

é você fazendo falta

com uma precisão quase científica.

Porque não é qualquer ausência.

Há milhões de pessoas

que não estão aqui neste instante

e nenhuma delas

me causa o menor problema.

Você, ao contrário,

consegue não estar

com uma presença impressionante.

Talento raro.

E talvez seja isso

o que mais me comove:

descobrir que alguém pode estar longe

e ainda assim alterar

a pressão atmosférica de um quarto.

Pode mudar o peso das horas.

Pode transformar uma tarde comum

num argumento filosófico

contra a geografia.

Mas passa.

Não você.

O aperto.

Porque o coração também aprende

que distância não é sentença,

é apenas espaço.

E espaço, desde os fenícios,

serve principalmente

para ser atravessado.

Um dia, portanto,

as pernas haverão de receber

a notícia que o peito já sabe.

A porta deixará de parecer

uma fronteira metafísica.

As chaves serão apenas chaves.

E toda essa monumental arquitetura

de prudência, medo e compostura

descobrirá, um pouco constrangida,

que bastava levantar.

Até lá,

há uma coisa curiosamente bonita

em sentir assim:

se meu corpo ainda hesita,

alguma coisa em mim

já partiu.

E talvez o amor seja exatamente isso:

chegar primeiro por dentro

e passar algum tempo

esperando

que o resto de nós

tenha coragem de acompanhar.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 24/08/2026
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