Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

Há algum tempo

venho observando a tristeza.

Não para expulsá-la,

nem para fazer dela morada,

mas para compreender

o que ela tenta dizer

quando se senta em silêncio

ao lado da vida.

Durante muito tempo,

pareceu o contrário da alegria.

Como se uma precisasse partir

para que a outra pudesse chegar.

Mas talvez não seja assim.

Talvez alegria e tristeza

sejam águas do mesmo rio,

movidas por margens diferentes,

obedecendo à mesma corrente.

Há dias em que o coração sobe.

Há dias em que desce.

E há uma estranha justiça nisso:

quem nunca conheceu a falta

talvez não saiba reconhecer

a abundância quando ela chega.

Quem jamais atravessou a noite

pouco entende

o primeiro pássaro da manhã.

A vida oscila.

Aproxima e afasta.

Entrega e recolhe.

Abre portas

e, sem qualquer cerimônia,

fecha algumas delas

quando ainda estávamos atravessando.

Talvez a instabilidade

não seja defeito do caminho.

Talvez seja o próprio caminho

ensinando movimento.

Porque nenhuma estação permanece.

Nenhuma lágrima conhece

o segredo da eternidade.

Nem mesmo a felicidade

recebeu o privilégio

de parar o tempo.

Tudo passa.

Mas nem tudo passa em vão.

Há tristezas que deixam profundidade.

Há alegrias que deixam coragem.

Há despedidas que abrem espaço.

Há silêncios que reorganizam

o que o barulho havia confundido.

E chega um momento

em que já não se deseja escolher

entre rir e chorar.

Deseja-se apenas estar inteiro

quando qualquer um deles chegar.

Talvez transcender

não seja abandonar o que é humano.

Talvez seja atravessá-lo

sem perder de vista

aquilo que em nós

não oscila com tanta facilidade.

Um centro.

Uma presença.

Uma espécie de luz

que não desaparece

quando as lâmpadas se apagam.

Então a tristeza deixa de ser inimiga.

A alegria deixa de ser promessa.

Ambas tornam-se visitas.

Sentam-se à mesa.

Dizem o que vieram dizer.

E seguem viagem.

Enquanto algo maior permanece.

Talvez seja isso

que os ciclos tentam ensinar:

não viemos aprender

a evitar a noite.

Viemos aprender

que a manhã continua existindo

mesmo quando ainda não conseguimos vê-la.

E depois de tantas voltas,

quedas, encontros, perdas,

começos disfarçados de fim,

surge uma certeza tranquila:

a vida não caminha apenas

para aquilo que termina.

Caminha também

para aquilo que desperta.

E toda vez que alguém,

depois da tristeza,

ainda consegue abrir a janela,

o universo recebe

uma pequena confirmação:

a luz encontrou novamente

o caminho de casa.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 20/08/2026
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