Há algum tempo
venho observando a tristeza.
Não para expulsá-la,
nem para fazer dela morada,
mas para compreender
o que ela tenta dizer
quando se senta em silêncio
ao lado da vida.
Durante muito tempo,
pareceu o contrário da alegria.
Como se uma precisasse partir
para que a outra pudesse chegar.
Mas talvez não seja assim.
Talvez alegria e tristeza
sejam águas do mesmo rio,
movidas por margens diferentes,
obedecendo à mesma corrente.
Há dias em que o coração sobe.
Há dias em que desce.
E há uma estranha justiça nisso:
quem nunca conheceu a falta
talvez não saiba reconhecer
a abundância quando ela chega.
Quem jamais atravessou a noite
pouco entende
o primeiro pássaro da manhã.
A vida oscila.
Aproxima e afasta.
Entrega e recolhe.
Abre portas
e, sem qualquer cerimônia,
fecha algumas delas
quando ainda estávamos atravessando.
Talvez a instabilidade
não seja defeito do caminho.
Talvez seja o próprio caminho
ensinando movimento.
Porque nenhuma estação permanece.
Nenhuma lágrima conhece
o segredo da eternidade.
Nem mesmo a felicidade
recebeu o privilégio
de parar o tempo.
Tudo passa.
Mas nem tudo passa em vão.
Há tristezas que deixam profundidade.
Há alegrias que deixam coragem.
Há despedidas que abrem espaço.
Há silêncios que reorganizam
o que o barulho havia confundido.
E chega um momento
em que já não se deseja escolher
entre rir e chorar.
Deseja-se apenas estar inteiro
quando qualquer um deles chegar.
Talvez transcender
não seja abandonar o que é humano.
Talvez seja atravessá-lo
sem perder de vista
aquilo que em nós
não oscila com tanta facilidade.
Um centro.
Uma presença.
Uma espécie de luz
que não desaparece
quando as lâmpadas se apagam.
Então a tristeza deixa de ser inimiga.
A alegria deixa de ser promessa.
Ambas tornam-se visitas.
Sentam-se à mesa.
Dizem o que vieram dizer.
E seguem viagem.
Enquanto algo maior permanece.
Talvez seja isso
que os ciclos tentam ensinar:
não viemos aprender
a evitar a noite.
Viemos aprender
que a manhã continua existindo
mesmo quando ainda não conseguimos vê-la.
E depois de tantas voltas,
quedas, encontros, perdas,
começos disfarçados de fim,
surge uma certeza tranquila:
a vida não caminha apenas
para aquilo que termina.
Caminha também
para aquilo que desperta.
E toda vez que alguém,
depois da tristeza,
ainda consegue abrir a janela,
o universo recebe
uma pequena confirmação:
a luz encontrou novamente
o caminho de casa.