Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

No começo,

há amores que chegam

como o fogo chega à cortina:

inteiros,

depressa

e com péssimas noções de consequência.

Chamam aquilo de intensidade,

porque falta de juízo

parece pouco poético.

Querem presença

com a urgência absurda

de quem acredita

que alguns centímetros de distância

já constituem abandono.

Se o outro demora,

o relógio conspira.

Se silencia,

o pensamento —

esse funcionário dedicado ao caos —

faz hora extra.

E tudo se confunde:

ciúme com cuidado,

pressa com desejo,

proximidade com segurança,

e a vontade quase infantil

de caber inteiro na vida de alguém

com profundidade.

Nesse tempo,

amar parece exigir

todas as portas abertas,

todas as janelas acesas

e todos os caminhos

terminando convenientemente

na mesma pessoa.

Convenhamos:

o amor jovem

tem certas tendências monárquicas.

Quer o território,

a bandeira,

o hino

e, se ninguém o impedir,

manda cunhar moeda.

Até que vem o fogo.

Não aquele.

Outro.

Mais lento.

O fogo necessário.

Aquele que não queima o amor,

mas tudo aquilo

que foi pendurado nele

para fazê-lo parecer maior:

o medo,

a pressa,

as expectativas com letras miúdas,

as promessas que ninguém fez,

a fantasia de que amar alguém

concede algum direito

sobre seus passos.

Dói.

É claro que dói.

Toda alquimia séria

tem uma fase

em que ninguém fica

particularmente fotogênico.

Algumas certezas viram cinza.

Outras, fumaça.

E há noites

em que se procura entre os escombros

o amor que existia antes,

sem perceber

que ele está justamente ali,

sentado no chão,

coberto de fuligem,

esperando que terminem

de confundi-lo com posse.

É então

que se aprende uma coisa estranha:

o fogo também precisa de margens.

Não para arder menos.

Para arder melhor.

Uma lareira não humilha a chama.

Dá-lhe lugar.

As bordas não dizem:

— Não queime.

Dizem:

— Fique.

E talvez amar

seja exatamente isso:

encontrar no outro

não um lugar para desaparecer,

mas um lugar onde permanecer

sem precisar invadir.

O amor amadurecido

já não quer todas as horas.

Quer aquelas

em que o outro chega inteiro.

Não exige conhecer

cada silêncio.

Alguns silêncios

pertencem apenas a quem os carrega,

e isso deixa de parecer ameaça.

Também deixa de ser necessário

impedir que existam estradas

percorridas a sós.

Afinal,

quem ama

não precisa colocar pedágio

em todos os caminhos.

E quando a velha urgência retorna

porque certas loucuras

não morrem,

apenas aprendem boas maneiras

é possível reconhecê-la,

oferecer-lhe café

e não entregar os fósforos.

Porque o desejo permanece.

Talvez até maior.

Ainda há fogo.

Ainda existem nomes

capazes de desorganizar

a geografia secreta do corpo.

Ainda existem gestos

que fazem o bom senso

considerar seriamente

pedir demissão.

Mas agora existe uma casa.

Existe chão.

Existe janela.

Existe espaço suficiente

para que alguém respire

sem que seu fôlego

seja confundido com distância.

E existe uma lareira.

Um lugar

onde o amor pode arder

sem consumir aquilo que ama.

Talvez duas pessoas amadureçam

quando finalmente compreendem

que permanecer

não é estar preso,

que distância

não é ausência,

que liberdade

não é despedida,

e que duas pessoas

podem pertencer profundamente

uma à outra

sem que nenhuma delas

precise deixar

de pertencer a si.

Então o fogo muda.

Não diminui.

Muda.

Já não precisa transformar alguém em cinza

para provar que é chama.

Não exige renúncias

como recibo de amor.

Quer o outro vivo.

Inteiro.

Indomesticavelmente seu.

E deseja que ele permaneça

não porque não pode partir,

mas porque ainda reconhece ali

um lugar bom para chegar.

E se um dia

a distância entrar pela porta

e sentar-se entre os dois,

talvez não seja necessário

fazer escândalo.

Pode-se puxar uma cadeira.

Servir vinho.

Certos amores

já sobreviveram

a incêndios piores.

E enquanto a noite cresce

do lado de fora,

basta colocar

mais um pedaço de madeira no fogo

e compreender,

com aquela serenidade

que só os antigos incendiários alcançam:

o amor não ficou menor.

Apenas encontrou

onde arder

sem destruir a casa.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 16/08/2026
Alterado em 16/08/2026
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