No começo,
há amores que chegam
como o fogo chega à cortina:
inteiros,
depressa
e com péssimas noções de consequência.
Chamam aquilo de intensidade,
porque falta de juízo
parece pouco poético.
Querem presença
com a urgência absurda
de quem acredita
que alguns centímetros de distância
já constituem abandono.
Se o outro demora,
o relógio conspira.
Se silencia,
o pensamento —
esse funcionário dedicado ao caos —
faz hora extra.
E tudo se confunde:
ciúme com cuidado,
pressa com desejo,
proximidade com segurança,
e a vontade quase infantil
de caber inteiro na vida de alguém
com profundidade.
Nesse tempo,
amar parece exigir
todas as portas abertas,
todas as janelas acesas
e todos os caminhos
terminando convenientemente
na mesma pessoa.
Convenhamos:
o amor jovem
tem certas tendências monárquicas.
Quer o território,
a bandeira,
o hino
e, se ninguém o impedir,
manda cunhar moeda.
Até que vem o fogo.
Não aquele.
Outro.
Mais lento.
O fogo necessário.
Aquele que não queima o amor,
mas tudo aquilo
que foi pendurado nele
para fazê-lo parecer maior:
o medo,
a pressa,
as expectativas com letras miúdas,
as promessas que ninguém fez,
a fantasia de que amar alguém
concede algum direito
sobre seus passos.
Dói.
É claro que dói.
Toda alquimia séria
tem uma fase
em que ninguém fica
particularmente fotogênico.
Algumas certezas viram cinza.
Outras, fumaça.
E há noites
em que se procura entre os escombros
o amor que existia antes,
sem perceber
que ele está justamente ali,
sentado no chão,
coberto de fuligem,
esperando que terminem
de confundi-lo com posse.
É então
que se aprende uma coisa estranha:
o fogo também precisa de margens.
Não para arder menos.
Para arder melhor.
Uma lareira não humilha a chama.
Dá-lhe lugar.
As bordas não dizem:
— Não queime.
Dizem:
— Fique.
E talvez amar
seja exatamente isso:
encontrar no outro
não um lugar para desaparecer,
mas um lugar onde permanecer
sem precisar invadir.
O amor amadurecido
já não quer todas as horas.
Quer aquelas
em que o outro chega inteiro.
Não exige conhecer
cada silêncio.
Alguns silêncios
pertencem apenas a quem os carrega,
e isso deixa de parecer ameaça.
Também deixa de ser necessário
impedir que existam estradas
percorridas a sós.
Afinal,
quem ama
não precisa colocar pedágio
em todos os caminhos.
E quando a velha urgência retorna
porque certas loucuras
não morrem,
apenas aprendem boas maneiras
é possível reconhecê-la,
oferecer-lhe café
e não entregar os fósforos.
Porque o desejo permanece.
Talvez até maior.
Ainda há fogo.
Ainda existem nomes
capazes de desorganizar
a geografia secreta do corpo.
Ainda existem gestos
que fazem o bom senso
considerar seriamente
pedir demissão.
Mas agora existe uma casa.
Existe chão.
Existe janela.
Existe espaço suficiente
para que alguém respire
sem que seu fôlego
seja confundido com distância.
E existe uma lareira.
Um lugar
onde o amor pode arder
sem consumir aquilo que ama.
Talvez duas pessoas amadureçam
quando finalmente compreendem
que permanecer
não é estar preso,
que distância
não é ausência,
que liberdade
não é despedida,
e que duas pessoas
podem pertencer profundamente
uma à outra
sem que nenhuma delas
precise deixar
de pertencer a si.
Então o fogo muda.
Não diminui.
Muda.
Já não precisa transformar alguém em cinza
para provar que é chama.
Não exige renúncias
como recibo de amor.
Quer o outro vivo.
Inteiro.
Indomesticavelmente seu.
E deseja que ele permaneça
não porque não pode partir,
mas porque ainda reconhece ali
um lugar bom para chegar.
E se um dia
a distância entrar pela porta
e sentar-se entre os dois,
talvez não seja necessário
fazer escândalo.
Pode-se puxar uma cadeira.
Servir vinho.
Certos amores
já sobreviveram
a incêndios piores.
E enquanto a noite cresce
do lado de fora,
basta colocar
mais um pedaço de madeira no fogo
e compreender,
com aquela serenidade
que só os antigos incendiários alcançam:
o amor não ficou menor.
Apenas encontrou
onde arder
sem destruir a casa.