Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

Não foi de repente.

O amor raramente chega

com a educação de quem toca a campainha.

Às vezes entra pela lateral,

mexe numa cadeira,

troca duas certezas de lugar

e quando percebemos

já reorganizou a sala inteira.

Foi assim.

Primeiro, uma conversa

que demorou mais do que devia.

Depois, a vontade estranha

de contar uma coisa pequena

que não interessaria a mais ninguém.

E então aquele perigo delicado:

começar a incluir alguém

nos pensamentos que ainda nem aconteceram.

Não havia promessa.

Havia presença.

E talvez seja essa

a parte mais bonita do amor:

quando ele deixa de precisar

de grandes acontecimentos

para continuar acontecendo.

Você começou a aparecer

nas margens dos meus dias.

Na frase que eu guardaria para contar depois,

na música que ganhou outro sentido,

na paisagem que de repente

parecia ter espaço para duas pessoas.

Até minhas dúvidas

passaram a falar de você.

O que, convenhamos,

é uma forma bastante sofisticada

de perder o controle.

Mas não tive medo.

Ou tive.

Só descobri que coragem

não é ausência de medo.

Às vezes é simplesmente

não fechar a porta

quando algo bonito entra.

E você entrou.

Sem conquistar território,

sem pedir que eu diminuísse o mundo

para caber dentro de nós.

Ao contrário:

alguma coisa em mim ficou maior.

Foi então que percebi

que um amor verdadeiro

não ocupa espaço.

Ele cria espaço.

Não nos afasta de quem somos.

Aprofunda.

Não exige que abandonemos o caminho.

Começa a caminhar ao lado.

Hoje já não sei dizer

em que momento exato

você deixou de ser alguém que eu amava

e passou a fazer parte

da maneira como amo a vida.

Talvez não exista momento.

Talvez certas coisas importantes

aconteçam assim:

sem cerimônia,

sem testemunhas,

sem música de fundo.

Até que um dia

olhamos para dentro

e encontramos alguém ali,

não como hóspede,

mas como uma dessas presenças raras

que não precisam possuir nada

para pertencer.

E se algum dia me perguntarem

quando foi que aconteceu,

provavelmente vou sorrir.

Porque o amor tem esse defeito:

faz uma revolução inteira

e depois deixa a gente

tentando descobrir

onde começou a bagunça.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 16/08/2026
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