Não foi de repente.
O amor raramente chega
com a educação de quem toca a campainha.
Às vezes entra pela lateral,
mexe numa cadeira,
troca duas certezas de lugar
e quando percebemos
já reorganizou a sala inteira.
Foi assim.
Primeiro, uma conversa
que demorou mais do que devia.
Depois, a vontade estranha
de contar uma coisa pequena
que não interessaria a mais ninguém.
E então aquele perigo delicado:
começar a incluir alguém
nos pensamentos que ainda nem aconteceram.
Não havia promessa.
Havia presença.
E talvez seja essa
a parte mais bonita do amor:
quando ele deixa de precisar
de grandes acontecimentos
para continuar acontecendo.
Você começou a aparecer
nas margens dos meus dias.
Na frase que eu guardaria para contar depois,
na música que ganhou outro sentido,
na paisagem que de repente
parecia ter espaço para duas pessoas.
Até minhas dúvidas
passaram a falar de você.
O que, convenhamos,
é uma forma bastante sofisticada
de perder o controle.
Mas não tive medo.
Ou tive.
Só descobri que coragem
não é ausência de medo.
Às vezes é simplesmente
não fechar a porta
quando algo bonito entra.
E você entrou.
Sem conquistar território,
sem pedir que eu diminuísse o mundo
para caber dentro de nós.
Ao contrário:
alguma coisa em mim ficou maior.
Foi então que percebi
que um amor verdadeiro
não ocupa espaço.
Ele cria espaço.
Não nos afasta de quem somos.
Aprofunda.
Não exige que abandonemos o caminho.
Começa a caminhar ao lado.
Hoje já não sei dizer
em que momento exato
você deixou de ser alguém que eu amava
e passou a fazer parte
da maneira como amo a vida.
Talvez não exista momento.
Talvez certas coisas importantes
aconteçam assim:
sem cerimônia,
sem testemunhas,
sem música de fundo.
Até que um dia
olhamos para dentro
e encontramos alguém ali,
não como hóspede,
mas como uma dessas presenças raras
que não precisam possuir nada
para pertencer.
E se algum dia me perguntarem
quando foi que aconteceu,
provavelmente vou sorrir.
Porque o amor tem esse defeito:
faz uma revolução inteira
e depois deixa a gente
tentando descobrir
onde começou a bagunça.