Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

A água, depois da queda,

já não tem pressa.

Descansa clara entre as pedras

e cobre os pés dela

como quem sabe

que certas mulheres

não se atravessam de repente.

Primeiro, pede-se licença.

Uma pétala amarela

se perde nos cabelos,

ou talvez tenha sido Oxum

deixando ali sua assinatura

porque até os deuses, quando elegantes,

preferem o detalhe ao anúncio.

Ela fecha os olhos.

A cachoeira continua dizendo

aquilo que a água diz há milênios

e que nós, ocupados demais,

ainda não aprendemos a escutar.

Chega o amaci.

Manjericão para o que precisa nascer,

calêndula para o que ainda arde,

erva-doce para convencer a alma

de que nem tudo precisa ser difícil,

alecrim para a memória

inclusive a memória

do que jamais aconteceu

e mesmo assim sentimos saudade.

Então sopra o beija-flor.

Pequeno.

Quase absurdo

que uma criatura daquele tamanho

carregue tanta delicadeza

sem precisar dar explicações.

Ele passa rente ao rosto dela

e o mundo muda de lugar.

Não muito.

Só o suficiente.

Ela atravessa.

Vai para um ponto

que não fica exatamente dentro da mata

nem completamente fora de si.

Um território entre árvores e encantados,

onde o tempo perde o relógio,

a razão tira os sapatos

e até o medo, sem ter o que fazer,

senta numa pedra e fica quieto.

Ali há uma arara

discutindo cores com o céu.

Um macaco observa tudo

com a indiscrição profissional

dos que nasceram para saber da vida alheia.

A onça-pintada passa soberana,

como se a floresta lhe pertencesse

e talvez pertença.

O tigre, geograficamente improvável,

não recebe explicação alguma.

No amor

e nos sonhos bem escritos,

a alfândega costuma ser menos rigorosa.

E então ele aparece.

Azul.

Não azul de tinta.

Azul daquela cor impossível

que existe por um segundo

quando o céu se lembra

de que também já foi mistério.

O beija-flor para diante dela.

As asas continuam,

mas todo o resto silencia.

Ela não sabe

se espera um voo,

uma revelação,

um milagre.

Recebe um beijo.

Breve.

Quase insolente.

Como são os melhores.

E Oxum, lá adiante,

continua cantarolando

com aquela sabedoria antiga

de quem sabe que o amor

não precisa explicar sua chegada.

Basta encontrar água limpa,

um coração distraído

e alguma beleza

sem testemunhas demais.

Depois o pássaro parte.

A floresta permanece.

A cachoeira volta a ser cachoeira.

Só ela não volta inteira.

Porque certas águas

não lavam.

Consagram.

Certos beijos

não começam na boca.

Começam muito antes,

num lugar para o qual

não existe estrada.

E certos beija-flores,

quando encontram a pessoa certa,

esquecem por um instante as flores.

E bebem diretamente da alma.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 13/08/2026
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