A água, depois da queda,
já não tem pressa.
Descansa clara entre as pedras
e cobre os pés dela
como quem sabe
que certas mulheres
não se atravessam de repente.
Primeiro, pede-se licença.
Uma pétala amarela
se perde nos cabelos,
ou talvez tenha sido Oxum
deixando ali sua assinatura
porque até os deuses, quando elegantes,
preferem o detalhe ao anúncio.
Ela fecha os olhos.
A cachoeira continua dizendo
aquilo que a água diz há milênios
e que nós, ocupados demais,
ainda não aprendemos a escutar.
Chega o amaci.
Manjericão para o que precisa nascer,
calêndula para o que ainda arde,
erva-doce para convencer a alma
de que nem tudo precisa ser difícil,
alecrim para a memória
inclusive a memória
do que jamais aconteceu
e mesmo assim sentimos saudade.
Então sopra o beija-flor.
Pequeno.
Quase absurdo
que uma criatura daquele tamanho
carregue tanta delicadeza
sem precisar dar explicações.
Ele passa rente ao rosto dela
e o mundo muda de lugar.
Não muito.
Só o suficiente.
Ela atravessa.
Vai para um ponto
que não fica exatamente dentro da mata
nem completamente fora de si.
Um território entre árvores e encantados,
onde o tempo perde o relógio,
a razão tira os sapatos
e até o medo, sem ter o que fazer,
senta numa pedra e fica quieto.
Ali há uma arara
discutindo cores com o céu.
Um macaco observa tudo
com a indiscrição profissional
dos que nasceram para saber da vida alheia.
A onça-pintada passa soberana,
como se a floresta lhe pertencesse
e talvez pertença.
O tigre, geograficamente improvável,
não recebe explicação alguma.
No amor
e nos sonhos bem escritos,
a alfândega costuma ser menos rigorosa.
E então ele aparece.
Azul.
Não azul de tinta.
Azul daquela cor impossível
que existe por um segundo
quando o céu se lembra
de que também já foi mistério.
O beija-flor para diante dela.
As asas continuam,
mas todo o resto silencia.
Ela não sabe
se espera um voo,
uma revelação,
um milagre.
Recebe um beijo.
Breve.
Quase insolente.
Como são os melhores.
E Oxum, lá adiante,
continua cantarolando
com aquela sabedoria antiga
de quem sabe que o amor
não precisa explicar sua chegada.
Basta encontrar água limpa,
um coração distraído
e alguma beleza
sem testemunhas demais.
Depois o pássaro parte.
A floresta permanece.
A cachoeira volta a ser cachoeira.
Só ela não volta inteira.
Porque certas águas
não lavam.
Consagram.
Certos beijos
não começam na boca.
Começam muito antes,
num lugar para o qual
não existe estrada.
E certos beija-flores,
quando encontram a pessoa certa,
esquecem por um instante as flores.
E bebem diretamente da alma.