Você me olha
com aquela precisão de quem erra de propósito.
Eu percebo.
Há certas distrações
que exigem atenção demais.
Você conversa com a sala,
com a janela,
com o copo,
com qualquer objeto inocente
que não tenha a inconveniência
de devolver o olhar.
Eu, não.
Eu devolvo.
E talvez seja esse o problema.
Há entre nós uma espécie de eletricidade
que nenhum engenheiro assinaria embaixo,
mas que acende coisas
sem autorização da companhia de energia.
Você, prudente,
instala disjuntores na alma.
Eu, menos técnico,
continuo encostando os dedos na tomada.
Não por imprudência.
Por pesquisa.
Você constrói parênteses,
vírgulas de segurança,
reticências estratégicas...
É admirável.
Transformou o desejo
num problema de pontuação.
Se eu me aproximo,
você põe ponto.
Se eu me afasto,
você põe interrogação.
E quando finalmente parece
que vai acontecer alguma coisa,
— travessão.
Mudamos de assunto.
Mas o corpo, esse analfabeto,
não respeita gramática.
Ele denuncia.
Uma respiração fora do lugar,
um segundo a mais no olhar,
a súbita necessidade de arrumar os cabelos
que já estavam perfeitamente arrumados.
Pequenas confissões involuntárias.
O amor talvez comece assim:
não com violinos,
nem luas enormes,
nem promessas que dariam trabalho ao futuro,
mas com duas pessoas
fazendo um esforço extraordinário
para parecer que não está acontecendo nada.
E acontecendo.
Você mantém distância.
Eu mantenho esperança.
Ambos fingimos equilíbrio
com a elegância de dois bêbados
carregando uma bandeja.
Às vezes penso
que o nosso desencontro
não é falta de caminho.
É excesso de cautela.
Há portas que não se abrem
porque alguém procura a chave
enquanto o outro, do lado de dentro,
espera que batam.
E assim seguimos:
você protegendo o coração
de uma catástrofe que talvez fosse felicidade,
eu tentando descobrir
se existe alguma fresta
na fortaleza impecável
que você chama de bom senso.
Existe.
Eu vi.
Foi ontem,
quando você sorriu antes de lembrar
que não devia.
Durou pouco.
Mas toda muralha
começa a perder a guerra
quando descobre uma ranhura.
E, convenhamos:
para quem já atravessou tantos abismos,
ser derrotado por um sorriso
seria até uma maneira elegante
de chegar ao outro lado.