Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

Você me olha

com aquela precisão de quem erra de propósito.

Eu percebo.

Há certas distrações

que exigem atenção demais.

Você conversa com a sala,

com a janela,

com o copo,

com qualquer objeto inocente

que não tenha a inconveniência

de devolver o olhar.

Eu, não.

Eu devolvo.

E talvez seja esse o problema.

Há entre nós uma espécie de eletricidade

que nenhum engenheiro assinaria embaixo,

mas que acende coisas

sem autorização da companhia de energia.

Você, prudente,

instala disjuntores na alma.

Eu, menos técnico,

continuo encostando os dedos na tomada.

Não por imprudência.

Por pesquisa.

Você constrói parênteses,

vírgulas de segurança,

reticências estratégicas...

É admirável.

Transformou o desejo

num problema de pontuação.

Se eu me aproximo,

você põe ponto.

Se eu me afasto,

você põe interrogação.

E quando finalmente parece

que vai acontecer alguma coisa,

— travessão.

Mudamos de assunto.

Mas o corpo, esse analfabeto,

não respeita gramática.

Ele denuncia.

Uma respiração fora do lugar,

um segundo a mais no olhar,

a súbita necessidade de arrumar os cabelos

que já estavam perfeitamente arrumados.

Pequenas confissões involuntárias.

O amor talvez comece assim:

não com violinos,

nem luas enormes,

nem promessas que dariam trabalho ao futuro,

mas com duas pessoas

fazendo um esforço extraordinário

para parecer que não está acontecendo nada.

E acontecendo.

Você mantém distância.

Eu mantenho esperança.

Ambos fingimos equilíbrio

com a elegância de dois bêbados

carregando uma bandeja.

Às vezes penso

que o nosso desencontro

não é falta de caminho.

É excesso de cautela.

Há portas que não se abrem

porque alguém procura a chave

enquanto o outro, do lado de dentro,

espera que batam.

E assim seguimos:

você protegendo o coração

de uma catástrofe que talvez fosse felicidade,

eu tentando descobrir

se existe alguma fresta

na fortaleza impecável

que você chama de bom senso.

Existe.

Eu vi.

Foi ontem,

quando você sorriu antes de lembrar

que não devia.

Durou pouco.

Mas toda muralha

começa a perder a guerra

quando descobre uma ranhura.

E, convenhamos:

para quem já atravessou tantos abismos,

ser derrotado por um sorriso

seria até uma maneira elegante

de chegar ao outro lado.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 13/08/2026
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