Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

Agreste do Coração

 

Há um agreste dentro de mim.

Nem sertão nem jardim

apenas um chão que aprendeu a viver do pouco,

onde a chuva é lenda e o vento, confessor das pedras.

Ali, cada lembrança tem o gosto do que resistiu,

cada ausência floresce como espinho que ainda sonha ser rosa.

 

Foi ali que o amor, feito mandacaru, se ergueu do nada.

Cresceu na secura, teimando contra o impossível,

bebendo do orvalho da madrugada e da saudade que não morria.

Mas veio a foice da distância,

e o tronco cedeu, partido antes da colheita.

A terra, porém, guardou segredo:

nem tudo que se corta deixa de viver.

 

Hoje, o sol ainda queima,

mas a aridez tem outra linguagem.

No pó das antigas promessas, vejo raízes se mexendo devagar,

como se o tempo estivesse regando de dentro.

Um verde discreto se insinua entre as pedras,

e o vento 

o mesmo que um dia levou 

agora volta trazendo cheiro de início.

 

O agreste aprende a ser primavera

sem precisar de estação.

E o coração, velho lavrador das esperas,

descobre que o amor, quando brota da perda,

vem mais sábio, mais viçoso,

com a coragem de florir mesmo sabendo

que um dia voltará a ser chão.

 

Pois só quem conheceu o deserto entende

que o milagre não é a flor  

é o recomeço.

 

 

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 11/08/2026
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