Agreste do Coração
Há um agreste dentro de mim.
Nem sertão nem jardim
apenas um chão que aprendeu a viver do pouco,
onde a chuva é lenda e o vento, confessor das pedras.
Ali, cada lembrança tem o gosto do que resistiu,
cada ausência floresce como espinho que ainda sonha ser rosa.
Foi ali que o amor, feito mandacaru, se ergueu do nada.
Cresceu na secura, teimando contra o impossível,
bebendo do orvalho da madrugada e da saudade que não morria.
Mas veio a foice da distância,
e o tronco cedeu, partido antes da colheita.
A terra, porém, guardou segredo:
nem tudo que se corta deixa de viver.
Hoje, o sol ainda queima,
mas a aridez tem outra linguagem.
No pó das antigas promessas, vejo raízes se mexendo devagar,
como se o tempo estivesse regando de dentro.
Um verde discreto se insinua entre as pedras,
e o vento
o mesmo que um dia levou
agora volta trazendo cheiro de início.
O agreste aprende a ser primavera
sem precisar de estação.
E o coração, velho lavrador das esperas,
descobre que o amor, quando brota da perda,
vem mais sábio, mais viçoso,
com a coragem de florir mesmo sabendo
que um dia voltará a ser chão.
Pois só quem conheceu o deserto entende
que o milagre não é a flor
é o recomeço.