Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

A pergunta errada

Nunca acreditei muito em quem dizia conhecer o futuro.

Mas sempre gostei de quem carregava uma bola de cristal.

Há uma diferença enorme.

Quem promete respostas costuma me assustar.

Quem cultiva mistérios...

esse sempre me conquista.

A primeira bola de cristal que vi repousava sobre uma toalha de veludo vinho.

Ao lado havia cartas antigas,

uma vela acesa,

um gato completamente desinteressado pelo destino da humanidade

e uma senhora de cabelos tão brancos

que pareciam já conhecer o inverno seguinte.

Ela olhou para mim.

Depois olhou para a bola.

Depois voltou a olhar para mim.

Sorriu.

— Você veio fazer a pergunta errada.

Confesso que fiquei ofendido.

Passei meia hora ensaiando aquela pergunta.

---

O grande mal-entendido

As pessoas querem saber se vão encontrar o amor.

Nunca perguntam

se vão conseguir reconhecê-lo.

Querem descobrir se ficarão ricas.

Jamais perguntam

se terão tempo

para gastar a riqueza

olhando um pôr do sol.

Querem saber quantos anos vão viver.

Quase nunca perguntam

quantos deles

realmente valerão a pena.

Tenho para mim

que todos os oráculos vivem

de um enorme mal-entendido.

Nós imaginamos

que eles olham para o amanhã.

Acho que não.

Eles olham para nós.

Com uma delicadeza quase constrangedora.

Como quem sussurra:

"O futuro nunca foi o problema.

Você apenas anda distraído demais

para perceber

o tamanho do presente."

---

A única conversa

As cartas nunca falaram.

As runas nunca falaram.

Os búzios jamais abriram a boca.

A bola de cristal,

coitada,

também passou séculos

em absoluto silêncio.

Quem sempre falou...

fomos nós.

Nossa esperança.

Nosso medo.

Nossa ansiedade,

fantasiada de curiosidade.

Descobri isso

numa tarde qualquer.

Olhei para uma bola de cristal.

Ela devolveu exatamente

o mesmo olhar.

Ficamos alguns minutos

sem dizer absolutamente nada.

Foi uma das conversas

mais inteligentes

que já tive.

---

A previsão

Desde então

continuo entrando

em lojas esotéricas.

Não para comprar o futuro.

Ele chega

de qualquer maneira.

Entro porque gosto

do perfume antigo.

Dos livros gastos.

Dos relógios

que decidiram parar.

Das velas.

Das cartas.

Dos cristais.

Da educada loucura

de imaginar

que o universo inteiro

aceitou esconder segredos

dentro de uma pedra transparente.

Outro dia encontrei uma cigana.

Perguntei:

— A senhora vê meu futuro?

Ela sorriu.

— Vejo.

Meu coração fez o que sempre faz

quando espera uma grande revelação.

Ela continuou:

— Você vai continuar fazendo perguntas

que nenhuma bola de cristal

jamais conseguirá responder.

Respirei aliviado.

Porque naquele instante

descobri

a única previsão

que realmente me deixava feliz.

Ainda não havia perdido

a capacidade

de me maravilhar.

E talvez...

esse seja

o único destino

que vale a pena conhecer

antes da hora.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 10/08/2026
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