A pergunta errada
Nunca acreditei muito em quem dizia conhecer o futuro.
Mas sempre gostei de quem carregava uma bola de cristal.
Há uma diferença enorme.
Quem promete respostas costuma me assustar.
Quem cultiva mistérios...
esse sempre me conquista.
A primeira bola de cristal que vi repousava sobre uma toalha de veludo vinho.
Ao lado havia cartas antigas,
uma vela acesa,
um gato completamente desinteressado pelo destino da humanidade
e uma senhora de cabelos tão brancos
que pareciam já conhecer o inverno seguinte.
Ela olhou para mim.
Depois olhou para a bola.
Depois voltou a olhar para mim.
Sorriu.
— Você veio fazer a pergunta errada.
Confesso que fiquei ofendido.
Passei meia hora ensaiando aquela pergunta.
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O grande mal-entendido
As pessoas querem saber se vão encontrar o amor.
Nunca perguntam
se vão conseguir reconhecê-lo.
Querem descobrir se ficarão ricas.
Jamais perguntam
se terão tempo
para gastar a riqueza
olhando um pôr do sol.
Querem saber quantos anos vão viver.
Quase nunca perguntam
quantos deles
realmente valerão a pena.
Tenho para mim
que todos os oráculos vivem
de um enorme mal-entendido.
Nós imaginamos
que eles olham para o amanhã.
Acho que não.
Eles olham para nós.
Com uma delicadeza quase constrangedora.
Como quem sussurra:
"O futuro nunca foi o problema.
Você apenas anda distraído demais
para perceber
o tamanho do presente."
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A única conversa
As cartas nunca falaram.
As runas nunca falaram.
Os búzios jamais abriram a boca.
A bola de cristal,
coitada,
também passou séculos
em absoluto silêncio.
Quem sempre falou...
fomos nós.
Nossa esperança.
Nosso medo.
Nossa ansiedade,
fantasiada de curiosidade.
Descobri isso
numa tarde qualquer.
Olhei para uma bola de cristal.
Ela devolveu exatamente
o mesmo olhar.
Ficamos alguns minutos
sem dizer absolutamente nada.
Foi uma das conversas
mais inteligentes
que já tive.
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A previsão
Desde então
continuo entrando
em lojas esotéricas.
Não para comprar o futuro.
Ele chega
de qualquer maneira.
Entro porque gosto
do perfume antigo.
Dos livros gastos.
Dos relógios
que decidiram parar.
Das velas.
Das cartas.
Dos cristais.
Da educada loucura
de imaginar
que o universo inteiro
aceitou esconder segredos
dentro de uma pedra transparente.
Outro dia encontrei uma cigana.
Perguntei:
— A senhora vê meu futuro?
Ela sorriu.
— Vejo.
Meu coração fez o que sempre faz
quando espera uma grande revelação.
Ela continuou:
— Você vai continuar fazendo perguntas
que nenhuma bola de cristal
jamais conseguirá responder.
Respirei aliviado.
Porque naquele instante
descobri
a única previsão
que realmente me deixava feliz.
Ainda não havia perdido
a capacidade
de me maravilhar.
E talvez...
esse seja
o único destino
que vale a pena conhecer
antes da hora.