Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

Hoje nada extraordinário aconteceu.

O sol nasceu

sem pedir aplausos,

o café acertou o ponto,

o que já pode ser considerado

um pequeno milagre doméstico,

e ninguém telefonou

para anunciar o fim do mundo.

A manhã passou devagar,

sem grandes revelações,

sem músicas surgindo do nada,

sem o universo mandar sinais

por placas de automóvel.

Ainda bem.

Havia uma janela aberta,

um vento entrando sem cerimônia,

alguma coisa boa tocando ao longe

e a estranha sensação

de que não faltava nada.

Não porque tudo estivesse resolvido.

Havia contas, dúvidas,

uma gaveta que continua emperrada

e pelo menos três assuntos

que a humanidade poderia ter resolvido

sem minha participação.

Mas naquele dia

a felicidade não exigiu currículo.

Sentou-se ao lado,

pediu pouco,

ficou em silêncio

e pareceu perfeitamente confortável

com a vida sem maquiagem.

Alguém riu de alguma bobagem.

Uma comida simples estava ótima.

Uma mensagem chegou

na hora certa.

E por alguns minutos

ninguém precisou ser melhor,

mais rico,

mais sábio

ou espiritualmente atualizado.

Foi só um dia.

Um desses que o calendário

não terá motivo algum para lembrar.

E talvez seja justamente esse

o segredo que levamos anos para descobrir:

a felicidade raramente entra

pela porta principal.

Prefere aparecer de chinelos,

sem avisar,

sentar-se à nossa mesa

e perguntar:

— Tem mais café?

E quando percebemos,

o dia que não prometia nada

já nos deu tudo

o que precisava dar.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 08/08/2026
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