Hoje nada extraordinário aconteceu.
O sol nasceu
sem pedir aplausos,
o café acertou o ponto,
o que já pode ser considerado
um pequeno milagre doméstico,
e ninguém telefonou
para anunciar o fim do mundo.
A manhã passou devagar,
sem grandes revelações,
sem músicas surgindo do nada,
sem o universo mandar sinais
por placas de automóvel.
Ainda bem.
Havia uma janela aberta,
um vento entrando sem cerimônia,
alguma coisa boa tocando ao longe
e a estranha sensação
de que não faltava nada.
Não porque tudo estivesse resolvido.
Havia contas, dúvidas,
uma gaveta que continua emperrada
e pelo menos três assuntos
que a humanidade poderia ter resolvido
sem minha participação.
Mas naquele dia
a felicidade não exigiu currículo.
Sentou-se ao lado,
pediu pouco,
ficou em silêncio
e pareceu perfeitamente confortável
com a vida sem maquiagem.
Alguém riu de alguma bobagem.
Uma comida simples estava ótima.
Uma mensagem chegou
na hora certa.
E por alguns minutos
ninguém precisou ser melhor,
mais rico,
mais sábio
ou espiritualmente atualizado.
Foi só um dia.
Um desses que o calendário
não terá motivo algum para lembrar.
E talvez seja justamente esse
o segredo que levamos anos para descobrir:
a felicidade raramente entra
pela porta principal.
Prefere aparecer de chinelos,
sem avisar,
sentar-se à nossa mesa
e perguntar:
— Tem mais café?
E quando percebemos,
o dia que não prometia nada
já nos deu tudo
o que precisava dar.