Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

Durante muito tempo,

há quem coloque alguém num lugar alto,

onde a luz chega primeiro

e os defeitos parecem apenas sombras.

Olha-se de baixo

com aquela confiança silenciosa

reservada às coisas

que parecem grandes demais

para precisar de explicação.

Até que um dia

a pedra se move.

Não há trovão.

Não há queda espetacular.

Ninguém se reúne na praça

para assistir ao desmoronamento.

Há apenas um gesto

ligeiramente fora do lugar.

Depois outro.

E mais um.

Até que se percebe

que não era o mundo

que estava diminuindo aquela pessoa.

Era o olhar

que finalmente havia deixado

de aumentá-la.

E isso dói.

Porque certas decepções

não quebram apenas a confiança.

Elas rasgam a biografia secreta

que alguém escreveu para o outro

sem jamais lhe mostrar.

Por algum tempo,

ainda se tenta restaurar a estátua.

Colam-se lembranças,

disfarçam-se rachaduras,

dão-se nomes mais suaves aos desvios

e chama-se de acidente

aquilo que começa a ter

a forma insistente de uma escolha.

Mas chega uma hora

em que compreender

já não significa permanecer.

Então a estátua é retirada do pedestal.

Sem ódio.

Sem martelo.

Sem a necessidade infantil

de transformar antiga admiração

em desprezo.

Apenas porque há pessoas

que continuam perfeitamente vivas

muito depois de deixarem de existir

no lugar que ocupavam em alguém.

E talvez seja essa

uma das despedidas mais estranhas:

seguir podendo encontrá-las na rua,

ouvir-lhes a voz,

reconhecer-lhes o rosto

e, ainda assim, saber

que já pertencem ao passado.

Não porque tenham desaparecido.

Mas porque certas quedas

não acontecem diante dos olhos.

Acontecem dentro daquilo

que se acreditava sobre alguém.

E depois delas,

resta uma sabedoria discreta:

nunca mais confundir

a altura de um pedestal

com a grandeza

de quem está sobre ele.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 07/08/2026
Alterado em 07/08/2026
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