Durante muito tempo,
há quem coloque alguém num lugar alto,
onde a luz chega primeiro
e os defeitos parecem apenas sombras.
Olha-se de baixo
com aquela confiança silenciosa
reservada às coisas
que parecem grandes demais
para precisar de explicação.
Até que um dia
a pedra se move.
Não há trovão.
Não há queda espetacular.
Ninguém se reúne na praça
para assistir ao desmoronamento.
Há apenas um gesto
ligeiramente fora do lugar.
Depois outro.
E mais um.
Até que se percebe
que não era o mundo
que estava diminuindo aquela pessoa.
Era o olhar
que finalmente havia deixado
de aumentá-la.
E isso dói.
Porque certas decepções
não quebram apenas a confiança.
Elas rasgam a biografia secreta
que alguém escreveu para o outro
sem jamais lhe mostrar.
Por algum tempo,
ainda se tenta restaurar a estátua.
Colam-se lembranças,
disfarçam-se rachaduras,
dão-se nomes mais suaves aos desvios
e chama-se de acidente
aquilo que começa a ter
a forma insistente de uma escolha.
Mas chega uma hora
em que compreender
já não significa permanecer.
Então a estátua é retirada do pedestal.
Sem ódio.
Sem martelo.
Sem a necessidade infantil
de transformar antiga admiração
em desprezo.
Apenas porque há pessoas
que continuam perfeitamente vivas
muito depois de deixarem de existir
no lugar que ocupavam em alguém.
E talvez seja essa
uma das despedidas mais estranhas:
seguir podendo encontrá-las na rua,
ouvir-lhes a voz,
reconhecer-lhes o rosto
e, ainda assim, saber
que já pertencem ao passado.
Não porque tenham desaparecido.
Mas porque certas quedas
não acontecem diante dos olhos.
Acontecem dentro daquilo
que se acreditava sobre alguém.
E depois delas,
resta uma sabedoria discreta:
nunca mais confundir
a altura de um pedestal
com a grandeza
de quem está sobre ele.