Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

Comecei procurando o amor

como quem procura uma porta

numa casa onde sempre viveu.

Revirei antigas certezas,

afastei os móveis do medo

e descobri, atrás de mim mesmo,

uma janela.

Por ela entrou uma luz

que não vinha de fora.

Era minha própria existência

pedindo licença para existir

sem culpa, sem disfarce,

sem precisar diminuir-se

para caber no olhar de ninguém.

Aprendi, então, a amar-me

não com essa solenidade dos espelhos,

porque, convenhamos,

há manhãs em que até a iluminação

precisa de café ,

mas com a paciência de quem finalmente entende

que também merece permanecer consigo.

E quanto mais eu me acolhia,

mais o mundo se alargava.

O amor deixou de ser uma fome

e tornou-se espaço;

deixou de pedir garantias

e começou a oferecer presença.

Passei a percebê-lo nas árvores,

na chuva, nos desconhecidos,

na delicadeza quase invisível

com que a vida conserta, durante a noite,

aquilo que o dia acredita ter destruído.

Minha consciência se expandiu

até compreender que nada existe sozinho,

que toda distância é apenas

uma ponte ainda não atravessada,

e que o universo inteiro talvez seja

uma maneira muito elaborada

de a vida não jantar sozinha.

Mas foi em você

que toda essa grandeza encontrou chão.

Porque amar o universo é belo,

mas ele raramente responde às mensagens,

não segura minha mão

nem percebe quando meu silêncio

está dizendo mais do que consigo explicar.

Em você, o amor deixou de ser ideia.

Ganhou gesto, espera, cuidado,

essas pequenas fidelidades cotidianas

que parecem simples,

mas sustentam constelações inteiras

sem fazer propaganda.

Foi amando você

que o amor se realizou em mim:

treinou sua paciência,

corrigiu seus excessos,

aprendeu a permanecer

quando o encanto já não precisava impressionar ninguém.

Você não limitou meu amor universal.

Deu-lhe uma morada.

Em você, aquilo que era expansão

tornou-se presença;

o que era luz

aprendeu a aquecer;

o que era infinito

aceitou a beleza de ter um nome.

E hoje compreendo:

o amor-próprio abriu a porta,

o mundo ampliou a casa,

a consciência ergueu as janelas

mas foi o amor que sinto por você

que colocou raízes no assoalho

e ensinou minha alma

a chamar de lar

aquilo que antes chamava de eternidade.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 07/08/2026
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