Comecei procurando o amor
como quem procura uma porta
numa casa onde sempre viveu.
Revirei antigas certezas,
afastei os móveis do medo
e descobri, atrás de mim mesmo,
uma janela.
Por ela entrou uma luz
que não vinha de fora.
Era minha própria existência
pedindo licença para existir
sem culpa, sem disfarce,
sem precisar diminuir-se
para caber no olhar de ninguém.
Aprendi, então, a amar-me
não com essa solenidade dos espelhos,
porque, convenhamos,
há manhãs em que até a iluminação
precisa de café ,
mas com a paciência de quem finalmente entende
que também merece permanecer consigo.
E quanto mais eu me acolhia,
mais o mundo se alargava.
O amor deixou de ser uma fome
e tornou-se espaço;
deixou de pedir garantias
e começou a oferecer presença.
Passei a percebê-lo nas árvores,
na chuva, nos desconhecidos,
na delicadeza quase invisível
com que a vida conserta, durante a noite,
aquilo que o dia acredita ter destruído.
Minha consciência se expandiu
até compreender que nada existe sozinho,
que toda distância é apenas
uma ponte ainda não atravessada,
e que o universo inteiro talvez seja
uma maneira muito elaborada
de a vida não jantar sozinha.
Mas foi em você
que toda essa grandeza encontrou chão.
Porque amar o universo é belo,
mas ele raramente responde às mensagens,
não segura minha mão
nem percebe quando meu silêncio
está dizendo mais do que consigo explicar.
Em você, o amor deixou de ser ideia.
Ganhou gesto, espera, cuidado,
essas pequenas fidelidades cotidianas
que parecem simples,
mas sustentam constelações inteiras
sem fazer propaganda.
Foi amando você
que o amor se realizou em mim:
treinou sua paciência,
corrigiu seus excessos,
aprendeu a permanecer
quando o encanto já não precisava impressionar ninguém.
Você não limitou meu amor universal.
Deu-lhe uma morada.
Em você, aquilo que era expansão
tornou-se presença;
o que era luz
aprendeu a aquecer;
o que era infinito
aceitou a beleza de ter um nome.
E hoje compreendo:
o amor-próprio abriu a porta,
o mundo ampliou a casa,
a consciência ergueu as janelas
mas foi o amor que sinto por você
que colocou raízes no assoalho
e ensinou minha alma
a chamar de lar
aquilo que antes chamava de eternidade.