Não me feriu tanto
o que disseram de mim.
Palavras alheias, no fundo,
costumam vestir a roupa
de quem as pronuncia.
O que doeu foi o espaço.
A sala aberta.
A cadeira puxada.
O silêncio fazendo vista grossa
enquanto alguém se sentia confortável
para diminuir meu nome
diante de quem dizia me querer bem.
Porque há traições
que não levantam a voz.
Apenas ficam quietas
no momento exato
em que deveriam ter sido presença.
E eu aprendi.
Quem permite que me apaguem
em sua frente
também escolhe, ainda que em silêncio,
um lugar nessa sombra.
Hoje já não discuto
com quem me defende pela metade.
A vida é curta demais
para mendigar lealdade
em mesas onde minha ausência
vira assunto permitido.
Eu sigo.
Com menos gente ao redor, talvez.
Mas com mais verdade perto.
Porque maturidade também é isso:
entender que nem toda perda é abandono.
Às vezes,
é só a dignidade
fechando a porta
para quem nunca soube
ficar do meu lado
com a luz acesa.