Há noites em que o frio parece antigo demais,
como se viesse de outras encarnações da solidão.
Então acendo a lareira, e não apenas fogo,
mas portais que dançam no idioma secreto das brasas.
As salamandras acordam sob o ferro,
deslizam entre lenhas como preces de luz.
Sussurram segredos em faíscas breves,
falando daquilo que o tempo não apaga,
mas transforma em centelha.
Queimo ali o sonho impossível
teus olhos, tua ausência, teu nome que arde sem som.
O ar se curva. O fogo respira.
E das chamas mais altas algo se move:
uma ave feita de lembrança e aurora,
erguendo-se do pó das minhas esperanças.
A Fênix, senhora dos amores findos
bebe o brilho do que fui,
traz no bico o ouro dos recomeços.
E quando abre as asas sobre a sala,
as salamandras se ajoelham no crepitar da lenha.
Não sei se é o fim do amor ou seu disfarce.
A chama cresce até tocar o teto da alma.
E o impossível, antes dor, torna-se promessa:
um amor novo, vindo das cinzas do que era sagrado.
O frio se recolhe, vencido.
E o coração, por um instante, acredita de novo
que amar é acender-se
e morrer
e renascer.