Há um velho tabuleiro guardado numa caixa de madeira. Quando a tampa se abre, dois exércitos despertam. Um veste branco, o outro veste preto. Nenhuma peça hesita. Cada uma sabe exatamente o que deve fazer: avançar, proteger, atacar, sacrificar-se quando necessário. Durante algumas horas, parecem inimigas irreconciliáveis. Quem observasse apenas o tabuleiro juraria que foram criadas para se destruir.
Mas há um detalhe que o tabuleiro não consegue mostrar.
As mãos que movem as peças pertencem a duas pessoas que chegaram juntas, rindo do caminho, compartilharam um café antes da partida e, quando tudo terminar, voltarão para casa conversando sobre a vida. Enquanto as peças acreditam que travam uma guerra, quem as conduz sabe que aquilo nunca passou de um encontro.
Talvez muitas das batalhas que enxergamos sejam parecidas. Vistos de perto, parecemos adversários: defendemos lados diferentes, ideias diferentes, interesses diferentes. Mas, vistos de um plano mais alto, talvez estejamos apenas ocupando posições distintas dentro de uma mesma experiência. Não porque o conflito seja falso, mas porque ele não é a realidade inteira.
No fim da partida, as peças voltam para a mesma caixa. Misturam-se no mesmo silêncio. Nenhuma leva consigo a vitória, a derrota ou o ressentimento. Apenas as mãos permanecem. E elas jamais foram inimigas.