Há mesas que não servem café.
Servem versões.
Alguém encosta o cotovelo,
baixa um pouco a voz,
faz aquela cara de quem “não quer se meter”
antes de se meter com entusiasmo olímpico
e pronto:
meu nome vira aperitivo.
Não é exatamente surpresa.
A humanidade, quando quer ser pequena,
costuma pedir sobremesa.
O interessante é o ambiente.
Porque ninguém transforma a ausência de alguém
em assunto confortável
se a sala não autoriza.
Toda fofoca precisa de mobiliário:
uma cadeira disponível,
um silêncio bem passado,
uma plateia fingindo distração
e alguém dizendo nada
com uma eficiência quase artística.
É aí que mora a verdadeira informação.
Não no veneno de quem fala.
Veneno, afinal, cada um carrega
conforme a própria farmácia interna.
A questão é quem deixou o frasco aberto
em cima da mesa
e ainda chamou aquilo de convivência.
Eu não espero heroísmo.
Ninguém precisa subir na cadeira,
bater taça com garfo
e proclamar minha santidade em praça pública.
Mas existe uma distância imensa
entre não fazer escândalo
e oferecer tapete vermelho
para a covardia entrar de sapato limpo.
Aprendi que lealdade não é discurso bonito.
É reflexo.
Ou aparece na hora,
ou depois vira explicação com perfume barato.
E eu, honestamente,
ando sem paciência
para recibo emocional vencido.
Quem me defende só no privado
talvez goste de mim.
Mas gosta mais ainda
da própria posição confortável
no camarote dos neutros.
E neutralidade, em certos casos,
é só covardia usando roupa de linho.
Hoje eu observo melhor.
Quem ri quando meu nome diminui.
Quem muda de assunto tarde demais.
Quem diz “não foi bem assim”
com aquela habilidade diplomática
de quem sabe exatamente como foi.
Não brigo.
A dignidade, quando amadurece,
para de fazer reunião
com quem já decidiu não ter coluna.
Ela apenas levanta,
paga a conta da ilusão
e sai sem derrubar uma cadeira.
Porque a vida é curta demais
para mendigar firmeza
de quem acha pesado demais
ficar do lado certo.
Eu quero presença inteira.
Gente que não confunda afeto
com decoração de ocasião.
Porque carinho sem coragem
é luz de vitrine:
brilha bonito,
mas não aquece ninguém.
Então sigo.
Com menos convites, talvez.
Menos mesas.
Menos abraços com cláusula oculta.
Mas com uma paz elegante
de quem finalmente entendeu:
nem toda perda tira algo da gente.
Às vezes,
ela só remove da sala
quem já fazia sombra
e chamava isso de amizade.