Há quem pense que dar
é perder alguma coisa:
um objeto,
um valor,
um pequeno território
que muda de mãos.
Mas dar de verdade
é uma estranha forma de multiplicação.
A gente escolhe,
imagina o rosto,
antecipa o espanto,
embrulha junto ao presente
uma esperança silenciosa:
tomara que isso te encontre
no lugar exato da alegria.
E então chega o instante.
As mãos se abrem,
o papel deixa de guardar segredo,
e o mundo, por alguns segundos,
fica atento ao rosto de alguém.
Quando os olhos se iluminam,
quem recebe ganha o presente
mas quem deu recebe algo maior:
a confirmação
de que foi capaz
de produzir felicidade
fora de si.
Talvez seja esse
o verdadeiro mistério de presentear:
oferecemos uma coisa,
mas esperamos um sorriso;
entregamos um poema,
mas desejamos que alguma palavra
consiga dizer por nós
aquilo que o coração
ainda não aprendeu a pronunciar;
entregamos um objeto,
mas desejamos tocar uma lembrança;
damos algo que pode ser guardado,
para receber de volta
algo que jamais caberia numa caixa.
Porque o presente só termina
quando a alegria começa.
E, nesse momento,
já não se sabe ao certo
quem foi presenteado.