Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

Há quem pense que dar

é perder alguma coisa:

um objeto,

um valor,

um pequeno território

que muda de mãos.

Mas dar de verdade

é uma estranha forma de multiplicação.

A gente escolhe,

imagina o rosto,

antecipa o espanto,

embrulha junto ao presente

uma esperança silenciosa:

tomara que isso te encontre

no lugar exato da alegria.

E então chega o instante.

As mãos se abrem,

o papel deixa de guardar segredo,

e o mundo, por alguns segundos,

fica atento ao rosto de alguém.

Quando os olhos se iluminam,

quem recebe ganha o presente 

mas quem deu recebe algo maior:

a confirmação

de que foi capaz

de produzir felicidade

fora de si.

Talvez seja esse

o verdadeiro mistério de presentear:

oferecemos uma coisa,

mas esperamos um sorriso;

entregamos um poema,

mas desejamos que alguma palavra

consiga dizer por nós

aquilo que o coração

ainda não aprendeu a pronunciar;

entregamos um objeto,

mas desejamos tocar uma lembrança;

damos algo que pode ser guardado,

para receber de volta

algo que jamais caberia numa caixa.

Porque o presente só termina

quando a alegria começa.

E, nesse momento,

já não se sabe ao certo

quem foi presenteado.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 30/07/2026
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