Há invernos que chegam pela janela,
outros entram direto pelo peito,
e pedem licença só depois o que é uma ousadia térmica considerável.
Lá fora, o frio faz sua pose antiga,
com vento dramático, céu baixo
e aquela vocação teatral
de transformar qualquer ida à padaria
numa expedição polar.
Mas aqui dentro há lareira,
vinho respirando no copo,
cobertor com ambições diplomáticas
e uma vontade mansa
de esquecer o mundo lá fora
em modo avião.
O inverno tem dessas delicadezas:
ensina o corpo a procurar abrigo,
a alma a gostar do silêncio
e o coração a descobrir
que também sabe acender fogo
sem precisar virar incêndio.
E quando o desejo se expande
feito calor ocupando a sala,
já não se sabe se é o vinho,
a chama,
a estação
ou esse teu jeito indecente
de tornar o frio
uma desculpa perfeitamente aceitável
para chegar mais perto.
No fim, o inverno entende tudo.
Fecha a noite devagar,
baixa a luz,
aumenta a brasa
e deixa dois corações aquecidos
com aquela cara inocente
de quem só queria
sobreviver ao frio.