Círculo
Perdoa-me
por ainda amar o que já não é amor,
por visitar o mesmo jardim seco
esperando uma flor que não existe.
Não sei romper o fio invisível
que nos prende além do gesto,
nem libertar o eco
que insiste em me chamar pelo teu silêncio.
Há noites em que penso
que morrer seria apenas descansar
dessa volta constante ao mesmo ponto:
esse círculo onde o coração, cansado,
anda, anda — e nunca chega.
Mas não te peço volta,
peço passagem.
Deixa-me ir, mesmo que devagar,
mesmo que ainda te olhe
pelas frestas do que fui.
Porque o amor que não se desfaz
também aprisiona,
e o perdão que peço
é o direito de respirar sem ti,
de ser lembrança,
sem continuar sendo ferida.
Se algum dia o vento tocar teu rosto
e te parecer que algo partiu,
não chores:
é só o que restava de mim
enfim aprendendo a partir.