Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

Os antigos não desperdiçavam palavras.

Sabiam que havia mulheres

que não cabiam no adjetivo "bela".

Era preciso mais.

Calipígia,

quando a harmonia encontrava repouso nas curvas.

Calicoma,

quando os cabelos pareciam feitos

da mesma matéria com que o vento aprende a cantar.

Caliprósopa,

porque certos rostos

não atravessam os olhos —

instalam-se na memória.

Haveria, talvez,

um nome esquecido

para quem possui olhos

que desarmam certezas,

outro para o riso

que modifica o clima de uma sala,

outro ainda

para a mulher cuja presença

faz o tempo caminhar mais devagar.

Os gregos compreenderam cedo

que a beleza nunca é inteira.

Ela se revela em detalhes.

No silêncio entre duas palavras.

Na delicadeza de um gesto.

Na elegância distraída

de quem jamais precisou convencer o espelho.

Há mulheres venustas,

que parecem trazer

a lembrança de um templo antigo.

As pulcras,

em quem tudo encontra a justa medida.

As garbosas,

que fazem da caminhada

uma forma discreta de música.

As eumorfas,

cujas proporções parecem obedecer

a uma geometria desconhecida.

As de beleza apolínea,

serena como a primeira luz

tocando uma estátua de mármore.

E existem as quase esculturais,

tão perfeitamente compostas

que fazem a pedra invejar a carne.

Mas foi então que te encontrei.

E percebi

que todas essas palavras

eram apenas tentativas.

Nenhuma descrevia

a maneira como teu olhar

interrompia meus pensamentos.

Nenhuma alcançava

a delicada arquitetura

do teu sorriso.

Nenhuma explicava

como tua presença

desorganizava o mundo

apenas para reorganizá-lo

ao redor de ti.

Talvez os antigos

tenham esquecido justamente

a palavra mais necessária.

Aquela reservada

para a mulher

que não encanta apenas os sentidos,

mas desperta

o desejo silencioso

de permanecer.

Porque há belezas

que os olhos admiram.

Outras,

o coração reconhece.

E existe a tua,

para a qual

nem o grego,

nem o latim,

nem qualquer língua inventada pelos homens

jamais encontrou

um nome suficiente.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 26/07/2026
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