Os antigos não desperdiçavam palavras.
Sabiam que havia mulheres
que não cabiam no adjetivo "bela".
Era preciso mais.
Calipígia,
quando a harmonia encontrava repouso nas curvas.
Calicoma,
quando os cabelos pareciam feitos
da mesma matéria com que o vento aprende a cantar.
Caliprósopa,
porque certos rostos
não atravessam os olhos —
instalam-se na memória.
Haveria, talvez,
um nome esquecido
para quem possui olhos
que desarmam certezas,
outro para o riso
que modifica o clima de uma sala,
outro ainda
para a mulher cuja presença
faz o tempo caminhar mais devagar.
Os gregos compreenderam cedo
que a beleza nunca é inteira.
Ela se revela em detalhes.
No silêncio entre duas palavras.
Na delicadeza de um gesto.
Na elegância distraída
de quem jamais precisou convencer o espelho.
Há mulheres venustas,
que parecem trazer
a lembrança de um templo antigo.
As pulcras,
em quem tudo encontra a justa medida.
As garbosas,
que fazem da caminhada
uma forma discreta de música.
As eumorfas,
cujas proporções parecem obedecer
a uma geometria desconhecida.
As de beleza apolínea,
serena como a primeira luz
tocando uma estátua de mármore.
E existem as quase esculturais,
tão perfeitamente compostas
que fazem a pedra invejar a carne.
Mas foi então que te encontrei.
E percebi
que todas essas palavras
eram apenas tentativas.
Nenhuma descrevia
a maneira como teu olhar
interrompia meus pensamentos.
Nenhuma alcançava
a delicada arquitetura
do teu sorriso.
Nenhuma explicava
como tua presença
desorganizava o mundo
apenas para reorganizá-lo
ao redor de ti.
Talvez os antigos
tenham esquecido justamente
a palavra mais necessária.
Aquela reservada
para a mulher
que não encanta apenas os sentidos,
mas desperta
o desejo silencioso
de permanecer.
Porque há belezas
que os olhos admiram.
Outras,
o coração reconhece.
E existe a tua,
para a qual
nem o grego,
nem o latim,
nem qualquer língua inventada pelos homens
jamais encontrou
um nome suficiente.