Há dias em que sigo em pé
como quem atravessa um campo depois da colheita:
a terra ainda é terra,
mas falta o rumor do que crescia.
Faço do tempo um gesto contido,
ocupo as horas com coisas que não me pedem tudo,
aprendo a falar com o silêncio
sem esperar resposta.
Não é ausência
é um desvio de luz.
O mundo continua correto demais,
as ruas cumprem seu traçado,
o céu insiste em amanhecer.
E eu sigo,
não porque saiba para onde,
mas porque caminhar
é a forma mais honesta
de admitir que algo em mim
ainda espera.