Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

Talvez, antes de tudo,

antes do bairro descobrir sua geografia,

antes da rua aprender o próprio nome,

tenha havido um conselho de família

num andar invisível da casa.

Não na sala de jantar dos vivos.

Nem no quarto de hóspedes

onde a memória dorme de luz apagada.

Penso em algo mais doméstico.

E por isso mais perigoso.

Uma cozinha antiga.

Lampião baixo.

Janela entreaberta.

Bisavós entediados de eternidade,

tias-avós que sempre tiveram opinião,

e algum tio remoto

daqueles que ninguém sabe direito

de que galho caiu

mexendo um caldo no fogão

que ferveu durante três gerações.

Um deles deve ter dito:

"Está na hora."

Outra, mais antiga,

respondeu:

"Está atrasado."

E então combinaram alguma coisa.

Não muito.

Os mortos competentes não empurram.

Só corrigem o ângulo da porta

um milímetro para o inevitável.

Adiantaram um ônibus.

Atrasaram uma chuva.

Esqueceram um guarda-chuva

numa mesa de padaria

que você frequentava sem saber

que era padaria de antepassado.

E eu apareci.

Não como sinal.

Sinais são exibicionistas,

e nossa família nunca foi de drama.

Apareci como gente.

Sapato gasto da semana.

Cara de pouco sono.

E o ar de quem ainda não percebeu

que acabou de pisar

exatamente no quadrado certo

de um tabuleiro

que os mortos vinham armando

desde antes do meu nome.

Foi ali que o silêncio mexeu o pé.

Alguma xícara tilintou sozinha

numa prateleira distante.

Alguma fotografia antiga

deu meio passo para o lado

dentro do porta-retratos.

A coincidência, essa funcionária descuidada,

ergueu os olhos do balcão

e percebeu tarde demais

que tinha sido enganada

por gente mais velha que ela.

Porque existem encontros

que não acontecem por acaso.

Acontecem por insistência.

Insistência de quem já não está aqui

e por isso tem tempo

de fazer as coisas direito.

Desde então,

há uma pessoa tentando parecer comum

enquanto carrega no peito

uma assembleia inteira de mortos satisfeitos.

Por fora, segue a vida.

Mercado, conta de luz, segunda-feira.

O café esfriando.

Por dentro, não.

Por dentro,

um avô que eu nunca conheci

ajusta a gravata

como quem vai a casamento.

Uma tia que morreu antes do meu nascer

confere o vestido pela milésima vez.

E a cozinha invisível

continua acesa.

Só para o caso de alguém

precisar de chá no meio da noite.

Talvez seja isso

que os mortos invejem nos vivos.

Nossa maneira tropeçada e bonita

de demorar a entender

o que eles arranjaram com tanto carinho.

Eles têm a paciência das eras.

Nós temos a pressa

de quem só dispõe de um corpo

e precisa usá-lo bem.

Eles têm panorama.

Nós temos o privilégio absurdo

de não saber o final

e mesmo assim escolher.

E, se combinaram tudo,

combinaram com elegância.

Porque não armaram apenas um encontro.

Armaram uma genealogia.

Um pequeno parentesco oculto.

Dessas afinidades

que parecem cabidas demais

para terem nascido agora.

Como se duas árvores diferentes

tivessem dividido,

lá no fundo do solo,

uma única raiz

que ninguém viu plantar.

Você me reconheceu

antes de me conhecer.

E desde então

há partes de mim

que só funcionam direito

quando você está na sala.

Como se algum mecanismo herdado

esperasse exatamente essa frequência

para enfim aprender a tocar.

Não é dependência.

Dependência é pobre.

Isso é herança.

Abre gavetas.

Acende corredores.

Devolve voz a fotografias.

Faz o futuro, esse animal arisco,

aceitar comida da minha mão.

Não sei que assembleia assinou isso.

A bisavó talvez negasse,

como toda culpada de boas intenções.

O tio do caldo diria

que só estava cuidando do tempero.

As tias-avós

sempre as mais espertas

trocariam olhares

e mudariam de assunto.

Mas eu desconfio

de algum ancestral sem retrato.

Um morto qualquer e genial.

Desses que não aparecem em álbum,

mas gostam de bordar

coincidências bem-feitas.

Ele deve ter olhado para nós

e pensado:

"Vamos ver

se ainda sabem reconhecer

o que foi preparado com tanto silêncio."

E aqui estamos.

Você talvez sem saber

quantas mãos antigas

ajeitaram a tua chegada.

Eu tentando não transformar

um cuidado vindo de longe

em peso de agora.

Porque herdar bem,

quando é verdadeiro,

também aprende modos diante do legado.

Não cobra.

Não convoca.

Não confunde encontro com posse,

como quem amarra fita em vento.

Herdar assim

é manter uma luz na cozinha

e deixar que a noite veja:

há fogo aqui.

Há mesa aqui.

Há um lugar de fato

para quem chegar por reconhecimento.

Por isso não peço aos mortos

que te tragam.

Os mortos exageram.

São antigos, ciumentos,

péssimos com pressa de gente viva.

Peço apenas

que se acomodem.

Que deixem o tempo respirar.

Que não bordem ansiedade no caminho.

Que não confundam afeto com vigilância.

Que permitam ao encontro

essa rara chance

de durar sem ruído,

crescer sem plateia,

e, um dia, se for justo,

esquecer que foi armado.

Porque se você vier,

não quero que venha empurrada por defunto.

Quero que venha de livre interesse.

Livre o bastante

para escolher ficar.

E se ficar,

que os mortos aprendam conosco

o que andaram esquecendo do outro lado:

que o amor mais durável

não é o que se herda do passado.

É o que se decide no presente.

Não é sina.

É escolha.

Não é destino.

É hábito.

Não é trama dos antepassados.

É duas pessoas,

ainda vivas, ainda atrapalhadas,

decidindo honrar juntas

aquilo que tanta gente antiga,

num gesto comovente de saudade,

teve a delicadeza de aproximar.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 21/07/2026
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