Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
Capa Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Contato Links
Textos

 

Ainda há um rumor de água correndo dentro do mundo,

como se o rio soubesse, antes de nós,

que nenhuma dor consegue represar para sempre

a vontade secreta da vida de continuar.

 

Lá do alto do vale,

onde o vento passa devagar entre as árvores

e a tarde aprende a ser mansa,

parece que tudo volta ao seu nome mais simples:

a casa, a janela, a rua quieta,

o sino distante,

a fumaça fina subindo de algum fogão aceso,

e um coração cansado tentando, sem alarde,

acreditar de novo.

 

Há cidades pequenas

que guardam o milagre das coisas sem pressa.

Nelas, o amor não chega vestido de espetáculo,

não faz promessas douradas demais para caber na vida.

Ele vem como vêm as águas:

contornando pedra,

beijando margem,

encontrando caminho

mesmo quando ninguém mais acredita no caminho.

 

E então a alma,

que já tinha desaprendido a florir,

ouve o rumor do rio nas noites mais silenciosas

e entende, quase em segredo,

que existir ainda pode ser bonito.

Que amar talvez não seja um privilégio perdido,

mas uma estação que retorna

quando a terra do peito consente chover.

 

Quem sabe ainda exista

essa possibilidade tão humana e tão divina:

ser olhado com ternura

sem precisar esconder os escombros,

ser amado não apesar das ruínas,

mas com elas,

como quem contempla um vale depois da tempestade

e, em vez de temer a névoa,

reconhece nela a delicadeza da manhã.

 

Quem sabe haja, sim,

um reencontro esperando na curva de alguma estrada,

numa cidade pacata, dessas onde o tempo conversa baixo,

onde o rio atravessa as horas

como se carregasse bilhetes da eternidade,

e o amor, intenso como água funda,

se revele não em excessos,

mas no gesto simples de permanecer.

 

Porque viver outra vez

talvez não seja voltar ao que fomos,

mas aceitar a beleza do que ainda podemos ser.

Uma varanda, um fim de tarde,

o brilho do sol deitando ouro sobre as águas,

o vale inteiro respirando paz,

e duas mãos que se encontram

como se o mundo, enfim,

tivesse decidido começar de novo.

 

Ainda há esperança.

Não aquela que grita,

nem a que exige garantias.

Mas a esperança quieta,

feita de rio, de horizonte, de silêncio e de espera,

que repousa nos altos do vale

e nos diz, com voz de água e eternidade:

há sempre a possibilidade

de amar e ser amado,

de tornar a viver,

de fazer da simplicidade

o lugar mais intenso do mundo.

 

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 21/07/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários
Capa Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Contato Links