Ainda há um rumor de água correndo dentro do mundo,
como se o rio soubesse, antes de nós,
que nenhuma dor consegue represar para sempre
a vontade secreta da vida de continuar.
Lá do alto do vale,
onde o vento passa devagar entre as árvores
e a tarde aprende a ser mansa,
parece que tudo volta ao seu nome mais simples:
a casa, a janela, a rua quieta,
o sino distante,
a fumaça fina subindo de algum fogão aceso,
e um coração cansado tentando, sem alarde,
acreditar de novo.
Há cidades pequenas
que guardam o milagre das coisas sem pressa.
Nelas, o amor não chega vestido de espetáculo,
não faz promessas douradas demais para caber na vida.
Ele vem como vêm as águas:
contornando pedra,
beijando margem,
encontrando caminho
mesmo quando ninguém mais acredita no caminho.
E então a alma,
que já tinha desaprendido a florir,
ouve o rumor do rio nas noites mais silenciosas
e entende, quase em segredo,
que existir ainda pode ser bonito.
Que amar talvez não seja um privilégio perdido,
mas uma estação que retorna
quando a terra do peito consente chover.
Quem sabe ainda exista
essa possibilidade tão humana e tão divina:
ser olhado com ternura
sem precisar esconder os escombros,
ser amado não apesar das ruínas,
mas com elas,
como quem contempla um vale depois da tempestade
e, em vez de temer a névoa,
reconhece nela a delicadeza da manhã.
Quem sabe haja, sim,
um reencontro esperando na curva de alguma estrada,
numa cidade pacata, dessas onde o tempo conversa baixo,
onde o rio atravessa as horas
como se carregasse bilhetes da eternidade,
e o amor, intenso como água funda,
se revele não em excessos,
mas no gesto simples de permanecer.
Porque viver outra vez
talvez não seja voltar ao que fomos,
mas aceitar a beleza do que ainda podemos ser.
Uma varanda, um fim de tarde,
o brilho do sol deitando ouro sobre as águas,
o vale inteiro respirando paz,
e duas mãos que se encontram
como se o mundo, enfim,
tivesse decidido começar de novo.
Ainda há esperança.
Não aquela que grita,
nem a que exige garantias.
Mas a esperança quieta,
feita de rio, de horizonte, de silêncio e de espera,
que repousa nos altos do vale
e nos diz, com voz de água e eternidade:
há sempre a possibilidade
de amar e ser amado,
de tornar a viver,
de fazer da simplicidade
o lugar mais intenso do mundo.