Foge comigo,
não para longe demais,
talvez só até onde o mundo
não saiba nosso endereço.
Pode ser uma ilha,
uma rua sem nome,
um domingo inventado,
ou aquele canto da casa
onde a tristeza esquece
de bater ponto.
Foge comigo
para uma vida pequena,
dessas imensas por dentro:
pão quente na mesa,
janela aberta,
riso sem motivo,
café passando
como se fosse incenso
de felicidade doméstica.
Não precisa mala grande.
Traz só os sonhos,
o coração,
duas ou três esperanças dobradas
e aquela coragem antiga
de quem ainda acredita
que o amor pode morar
numa xícara lascada.
Se estiver longe,
vem pela estrada das estrelas.
Se morar no quarto ao lado,
bate na parede duas vezes:
eu entenderei o mapa.
Vamos fugir
para inventar simplicidades,
plantar alegrias em vasos pequenos,
ensinar o tempo a andar descalço
e rir da pressa,
essa senhora nervosa
que nunca aprendeu a dançar.
Foge comigo,
nem que seja por dentro.
Às vezes,
a maior viagem do mundo
começa quando duas almas
param de pedir licença
para serem felizes.