Talvez você ainda me procure
nas ruas que um dia atravessei,
nos silêncios onde fiquei por tempo demais,
ou nas versões de mim
que aprenderam a sobreviver com pouco espaço.
Mas eu segui adiante.
Deixei algumas certezas
sentadas em estações antigas,
esperando trens
que já não passam.
Não foi desprezo.
Foi só mudança de rota.
Há quem chame isso de perda.
Eu prefiro chamar
de espaço livre.
Hoje moro um pouco mais à frente,
num lugar onde as janelas abrem,
as culpas pagam menos aluguel
e o futuro finalmente entra
sem precisar bater.
Ainda carrego cicatrizes, claro.
Mas agora elas são mapas,
não endereços.
Por isso, não tente me encontrar
no lugar exato
em que precisei me deixar para trás.
Venha até aqui.
Eu ainda sou eu,
só que com mais céu,
menos peso
e uma chave nova no bolso.