Disseram que o tempo passa.
Mentira.
Às vezes,
é a gente que passa por ele
e deixa para trás
um nome antigo,
uma chave que já não abre nada,
um modo de caber
que ficou pequeno.
Mudei tanto
que minhas lembranças
precisaram se apresentar de novo.
Algumas eu reconheci pela voz.
Outras,
pelo estrago.
Abri gavetas dentro de mim
e encontrei países
que nenhum mapa teve coragem
de desenhar.
Havia desertos
com sede de chuva,
cidades inteiras
esperando um habitante,
e uma janela acesa
no fim de uma rua
onde eu nunca tinha estado.
Era eu,
me esperando.
Cheguei sem mala,
sem documento,
sem saber dizer
há quanto tempo estava longe.
Então o amor apareceu.
Não veio com flores,
nem com música,
nem com a pontualidade
dos finais felizes.
Veio cansado,
carregando caixas,
perguntando onde podia deixar
as coisas.
Eu apontei para o peito.
Ele entrou,
abriu as janelas,
tirou o pó dos móveis
e colocou meu nome
na porta.
Desde então,
quando alguém pergunta
onde moro,
eu respondo:
finalmente,
em mim.