Sonha.
Sonha você perto,
mesmo que a vida diga
que isso é coisa improvável,
dessas que o destino guarda
na gaveta dos milagres
com um bilhete escrito:
“não duvide de mim”.
Sonha.
Porque há presenças
que, só de serem imaginadas,
já fazem o deserto
ensaiar flores.
A areia começa a desconfiar
que nasceu para jardim.
O cacto, tão sério,
quase abre um sorriso.
E até o sol, esse exagerado,
aprende a chegar mais manso
quando o amor passa.
Se esse sonho se realizar,
não será pouca coisa.
Vai ter estrela pedindo autógrafo,
lua perdendo a pose,
vento fazendo discurso,
e o coração, coitado,
tentando parecer adulto
enquanto vira festa por dentro.
Porque algumas pessoas
não chegam apenas perto.
Chegam como chuva rara,
como notícia boa em dia comum,
como primavera entrando sem bater
num lugar que já tinha se acostumado
a sobreviver em silêncio.
E então,
se você vier,
se esse sonho abrir os olhos
e resolver caminhar no mundo,
o deserto não vai apenas florescer.
Vai lembrar
que sempre carregou
um jardim escondido
por dentro.