Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

Há diálogos que começam antes da voz.

Nascem no instante em que dois olhares

se encontram sem aviso

e alguma coisa, por dentro,

perde a antiga direção.

 

Foi assim.

 

Nada foi dito.

Nenhuma promessa atravessou a mesa.

Nenhuma palavra teve coragem

de se levantar primeiro.

 

Mas o silêncio soube.

 

Soube que ali havia mais

do que acaso,

mais do que simpatia,

mais do que a delicadeza breve

de uma noite qualquer.

 

Há encontros que não entram pela porta.

Entram pelos olhos.

E quando chegam,

não perguntam se há espaço:

apenas acendem uma parte da alma

que parecia viver no escuro

sem reclamar.

 

Desde então,

a conversa existe,

mesmo sem ter começado.

 

Ela mora na frase ensaiada

e abandonada no meio do caminho.

No cuidado com cada palavra possível.

No medo bonito

de dizer demais,

cedo demais,

forte demais.

 

Porque quando o amor é pequeno,

qualquer assunto serve.

 

Mas quando o amor assusta pela grandeza,

até um simples “como você está?”

parece carregar o peso

de um coração inteiro batendo escondido.

 

E talvez seja esse o difícil:

não falta vontade de falar.

Falta uma palavra

que não seja menor

do que aquilo que nasceu.

 

Como começar

quando o primeiro olhar

já disse o que a boca

ainda não sabe sustentar?

 

Como tocar o assunto

sem transformar ternura em pressa,

esperança em cobrança,

presença em invasão?

 

Há um homem tentando aprender

a delicadeza dos grandes sentimentos.

Ele sabe que certos amores

não devem chegar como tempestade,

mesmo quando nasceram

com a força do mar.

 

Por isso espera o momento certo.

Não por covardia,

mas por respeito.

 

Respeito ao mistério dela.

Ao tempo dela.

À liberdade dela.

À beleza imensa

de um amor que só será verdadeiro

se puder ser escolhido.

 

Ainda assim,

dentro dele,

a conversa continua.

 

Ela diz coisas simples,

mas profundas:

 

que aquele olhar ficou;

que a noite passou,

mas não levou tudo embora;

que existe um cuidado crescendo

onde antes havia apenas desejo;

que há uma vontade serena

de conhecer não só o sorriso,

mas a história que o protege.

 

Um dia, talvez,

as palavras encontrem passagem.

 

Talvez comecem discretas,

quase tímidas,

como quem bate à porta

sem querer assustar a casa.

 

E então ele dirá pouco,

porque os grandes amores

raramente precisam começar

fazendo discurso.

 

Dirá apenas o suficiente

para que ela perceba

que aquele primeiro olhar

não foi esquecimento,

não foi fantasia,

não foi brilho passageiro.

 

Foi começo.

 

Um começo ainda em silêncio,

ainda sem nome,

ainda procurando coragem.

 

Mas começo.

 

E quando enfim a conversa nascer,

que nasça limpa,

sem pressa,

sem peso,

sem exigência.

 

Que venha como vem a luz da manhã:

tocando devagar

o que a noite guardou.

 

Porque há amores

que não começam quando são ditos.

 

Começam muito antes,

no instante exato

em que dois olhos se encontram

e o coração, sem pedir licença,

reconhece o lugar

para onde sempre quis voltar.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 16/07/2026
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