Há diálogos que começam antes da voz.
Nascem no instante em que dois olhares
se encontram sem aviso
e alguma coisa, por dentro,
perde a antiga direção.
Foi assim.
Nada foi dito.
Nenhuma promessa atravessou a mesa.
Nenhuma palavra teve coragem
de se levantar primeiro.
Mas o silêncio soube.
Soube que ali havia mais
do que acaso,
mais do que simpatia,
mais do que a delicadeza breve
de uma noite qualquer.
Há encontros que não entram pela porta.
Entram pelos olhos.
E quando chegam,
não perguntam se há espaço:
apenas acendem uma parte da alma
que parecia viver no escuro
sem reclamar.
Desde então,
a conversa existe,
mesmo sem ter começado.
Ela mora na frase ensaiada
e abandonada no meio do caminho.
No cuidado com cada palavra possível.
No medo bonito
de dizer demais,
cedo demais,
forte demais.
Porque quando o amor é pequeno,
qualquer assunto serve.
Mas quando o amor assusta pela grandeza,
até um simples “como você está?”
parece carregar o peso
de um coração inteiro batendo escondido.
E talvez seja esse o difícil:
não falta vontade de falar.
Falta uma palavra
que não seja menor
do que aquilo que nasceu.
Como começar
quando o primeiro olhar
já disse o que a boca
ainda não sabe sustentar?
Como tocar o assunto
sem transformar ternura em pressa,
esperança em cobrança,
presença em invasão?
Há um homem tentando aprender
a delicadeza dos grandes sentimentos.
Ele sabe que certos amores
não devem chegar como tempestade,
mesmo quando nasceram
com a força do mar.
Por isso espera o momento certo.
Não por covardia,
mas por respeito.
Respeito ao mistério dela.
Ao tempo dela.
À liberdade dela.
À beleza imensa
de um amor que só será verdadeiro
se puder ser escolhido.
Ainda assim,
dentro dele,
a conversa continua.
Ela diz coisas simples,
mas profundas:
que aquele olhar ficou;
que a noite passou,
mas não levou tudo embora;
que existe um cuidado crescendo
onde antes havia apenas desejo;
que há uma vontade serena
de conhecer não só o sorriso,
mas a história que o protege.
Um dia, talvez,
as palavras encontrem passagem.
Talvez comecem discretas,
quase tímidas,
como quem bate à porta
sem querer assustar a casa.
E então ele dirá pouco,
porque os grandes amores
raramente precisam começar
fazendo discurso.
Dirá apenas o suficiente
para que ela perceba
que aquele primeiro olhar
não foi esquecimento,
não foi fantasia,
não foi brilho passageiro.
Foi começo.
Um começo ainda em silêncio,
ainda sem nome,
ainda procurando coragem.
Mas começo.
E quando enfim a conversa nascer,
que nasça limpa,
sem pressa,
sem peso,
sem exigência.
Que venha como vem a luz da manhã:
tocando devagar
o que a noite guardou.
Porque há amores
que não começam quando são ditos.
Começam muito antes,
no instante exato
em que dois olhos se encontram
e o coração, sem pedir licença,
reconhece o lugar
para onde sempre quis voltar.