Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

O Dia em que o Absurdo Pediu Flores

 

Naquela manhã,

o elevador desceu para cima.

 

Ninguém reclamou,

talvez por educação,

talvez porque certas coisas estranhas

só parecem defeito

antes de virarem presságio.

 

Na padaria,

um pão saiu do forno

com cheiro de domingo,

embora fosse quarta-feira

e a semana ainda estivesse usando cara de reunião.

 

Um semáforo piscou azul.

Azul mesmo.

Como se a cidade, cansada de mandar parar ou seguir,

tivesse resolvido dizer:

“respira, criatura, hoje o destino está improvisando”.

 

No bolso do meu casaco

havia um botão de rosa

que eu não lembrava de ter guardado.

 

Pior:

ele parecia saber mais do que eu.

 

No jornal,

a previsão do tempo anunciava

“possibilidade de encontro no fim da tarde,

com ventos moderados de saudade

e risco elevado de perder a pose”.

 

Achei exagero.

 

Afinal, o coração da gente

também tem seus serviços meteorológicos,

mas quase nunca acerta.

Quando prevê garoa, vem dilúvio.

Quando promete sol, aparece uma pessoa

e muda a estação inteira

sem pedir licença ao calendário.

 

Mais tarde,

uma música começou a tocar

dentro de um táxi parado,

mas o motorista jurou

que o rádio estava desligado.

 

Era uma canção antiga,

dessas que parecem saber o nome daquilo

que a gente ainda não teve coragem

de sentir em voz alta.

 

Na esquina,

um cachorro olhou para mim

com uma seriedade indevida,

como quem diz:

“vai por ali, humano,

e tenta não estragar tudo desta vez”.

 

Obedeci.

 

Há conselhos que a gente ignora.

Outros vêm de um vira-lata filosófico

e precisam ser respeitados.

 

Foi então que o vento mudou de assunto,

as placas da rua perderam a objetividade,

e até a sombra das árvores

pareceu apontar para o mesmo lugar.

 

Nada fazia sentido.

 

O elevador rebelde,

o pão com memória de domingo,

o semáforo azul,

a rosa clandestina no bolso,

a previsão ridícula,

a música sem rádio,

o cachorro diplomata,

a cidade inteira

com cara de quem sabia o final

e não queria contar.

 

Então ela apareceu.

 

Não como explicação.

Explicação é coisa pequena demais

para certas chegadas.

 

Ela apareceu como encaixe.

 

E, de repente,

o elevador desceu para cima

porque o amor, quando vem,

inverte a gravidade.

 

O pão cheirava a domingo

porque algumas presenças

fazem qualquer dia comum

ganhar toalha limpa na mesa da alma.

 

O semáforo ficou azul

porque havia caminhos

que não pediam pressa,

nem parada,

mas céu.

 

A rosa no bolso

não era mistério:

era meu coração tentando levar flores

antes mesmo que eu entendesse

para quem.

 

A previsão do tempo acertou,

infelizmente para minha dignidade:

houve encontro no fim da tarde,

ventos fortes no peito

e perda total da pose

sem cobertura do seguro.

 

A música sem rádio

era só a vida afinando o fundo

antes de ela entrar em cena.

 

E o cachorro,

claro,

era um agente secreto do universo,

mal pago, mal penteado,

mas extremamente competente.

 

Foi assim que compreendi:

 

algumas coisas não nascem desconexas.

Nascem antes da nossa compreensão.

 

O amor chega primeiro

nas entrelinhas do mundo,

faz rabiscos no impossível,

troca as placas de lugar,

ensina o acaso a usar perfume

e deixa a lógica olhando tudo

com a prancheta na mão,

sem saber onde arquivar o milagre.

 

No fim,

o absurdo não estava perdido.

 

Estava apaixonado.

 

E montava, com humor duvidoso

e precisão divina,

o caminho exato

para que duas almas

se reconhecessem

no meio da bagunça.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 15/07/2026
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