O Dia em que o Absurdo Pediu Flores
Naquela manhã,
o elevador desceu para cima.
Ninguém reclamou,
talvez por educação,
talvez porque certas coisas estranhas
só parecem defeito
antes de virarem presságio.
Na padaria,
um pão saiu do forno
com cheiro de domingo,
embora fosse quarta-feira
e a semana ainda estivesse usando cara de reunião.
Um semáforo piscou azul.
Azul mesmo.
Como se a cidade, cansada de mandar parar ou seguir,
tivesse resolvido dizer:
“respira, criatura, hoje o destino está improvisando”.
No bolso do meu casaco
havia um botão de rosa
que eu não lembrava de ter guardado.
Pior:
ele parecia saber mais do que eu.
No jornal,
a previsão do tempo anunciava
“possibilidade de encontro no fim da tarde,
com ventos moderados de saudade
e risco elevado de perder a pose”.
Achei exagero.
Afinal, o coração da gente
também tem seus serviços meteorológicos,
mas quase nunca acerta.
Quando prevê garoa, vem dilúvio.
Quando promete sol, aparece uma pessoa
e muda a estação inteira
sem pedir licença ao calendário.
Mais tarde,
uma música começou a tocar
dentro de um táxi parado,
mas o motorista jurou
que o rádio estava desligado.
Era uma canção antiga,
dessas que parecem saber o nome daquilo
que a gente ainda não teve coragem
de sentir em voz alta.
Na esquina,
um cachorro olhou para mim
com uma seriedade indevida,
como quem diz:
“vai por ali, humano,
e tenta não estragar tudo desta vez”.
Obedeci.
Há conselhos que a gente ignora.
Outros vêm de um vira-lata filosófico
e precisam ser respeitados.
Foi então que o vento mudou de assunto,
as placas da rua perderam a objetividade,
e até a sombra das árvores
pareceu apontar para o mesmo lugar.
Nada fazia sentido.
O elevador rebelde,
o pão com memória de domingo,
o semáforo azul,
a rosa clandestina no bolso,
a previsão ridícula,
a música sem rádio,
o cachorro diplomata,
a cidade inteira
com cara de quem sabia o final
e não queria contar.
Então ela apareceu.
Não como explicação.
Explicação é coisa pequena demais
para certas chegadas.
Ela apareceu como encaixe.
E, de repente,
o elevador desceu para cima
porque o amor, quando vem,
inverte a gravidade.
O pão cheirava a domingo
porque algumas presenças
fazem qualquer dia comum
ganhar toalha limpa na mesa da alma.
O semáforo ficou azul
porque havia caminhos
que não pediam pressa,
nem parada,
mas céu.
A rosa no bolso
não era mistério:
era meu coração tentando levar flores
antes mesmo que eu entendesse
para quem.
A previsão do tempo acertou,
infelizmente para minha dignidade:
houve encontro no fim da tarde,
ventos fortes no peito
e perda total da pose
sem cobertura do seguro.
A música sem rádio
era só a vida afinando o fundo
antes de ela entrar em cena.
E o cachorro,
claro,
era um agente secreto do universo,
mal pago, mal penteado,
mas extremamente competente.
Foi assim que compreendi:
algumas coisas não nascem desconexas.
Nascem antes da nossa compreensão.
O amor chega primeiro
nas entrelinhas do mundo,
faz rabiscos no impossível,
troca as placas de lugar,
ensina o acaso a usar perfume
e deixa a lógica olhando tudo
com a prancheta na mão,
sem saber onde arquivar o milagre.
No fim,
o absurdo não estava perdido.
Estava apaixonado.
E montava, com humor duvidoso
e precisão divina,
o caminho exato
para que duas almas
se reconhecessem
no meio da bagunça.