Há limites inegociáveis,
até no infinito
essa velha mania do universo
de parecer livre
e ainda assim guardar suas bordas.
O amor também tem camadas:
a pele do encontro,
o silêncio depois da palavra,
a saudade que não pede licença,
a memória que senta à mesa
mesmo quando ninguém a convidou.
A vida tem seus níveis,
suas escadas, seus porões,
seus andares nobres
e aqueles corredores onde a alma
anda de chinelo, despenteada,
procurando café e alguma explicação.
A tristeza tem subsolos.
Desce-se por dentro dela
como quem procura uma chave antiga
em uma casa que já foi nossa.
Mas mesmo lá,
onde a luz chega atrasada,
alguma coisa tua me encontra.
E então eu pergunto
com a seriedade dos poetas
e a imprudência dos apaixonados:
qual é o limite
do sentimento que nos une?
Será a distância?
Ela tenta, coitada.
Puxa uma régua, mede o mundo,
faz pose de autoridade.
Mas basta teu nome atravessar meu pensamento
para a geografia perder o emprego.
Será o tempo?
Esse senhor antigo,
de relógio no bolso e opinião formada,
que insiste em dizer que tudo passa.
Mas há sentimentos que não passam:
mudam de roupa,
aprendem novas palavras,
ficam mais discretos,
mais elegantes,
às vezes até fingem maturidade
mas continuam ali,
completamente culpados de existir.
Será o silêncio?
Também não.
O silêncio entre nós
não é ausência:
é uma carta fechada
que o coração lê sem abrir.
Porque o que nos une
não cabe no limite comum das coisas.
Não é muro,
não é margem,
não é fronteira assinada em cartório.
É rio antigo passando por baixo da cidade,
é raiz conversando no escuro,
é estrela que já morreu
e ainda assim ilumina.
Se há um limite,
talvez seja apenas este:
o amor não pode ser menor
do que a verdade que o sustenta.
E se for verdade
mesmo imperfeita,
mesmo humana,
mesmo tropeçando nos próprios sapatos
então ele atravessa níveis,
camadas, subsolos,
distâncias, calendários
e todas essas burocracias
que a vida inventa
para testar os corações.
Pois o sentimento que nos une
não transcende os limites
por desprezá-los.
Transcende porque os conhece,
os toca,
os respeita,
e mesmo assim
continua.
Como quem diz:
há fronteiras no mundo,
mas não neste lugar
onde teu nome
ainda encontra abrigo em mim.