Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

 

 

Há limites inegociáveis,

até no infinito 

essa velha mania do universo

de parecer livre

e ainda assim guardar suas bordas.

 

O amor também tem camadas:

a pele do encontro,

o silêncio depois da palavra,

a saudade que não pede licença,

a memória que senta à mesa

mesmo quando ninguém a convidou.

 

A vida tem seus níveis,

suas escadas, seus porões,

seus andares nobres

e aqueles corredores onde a alma

anda de chinelo, despenteada,

procurando café e alguma explicação.

 

A tristeza tem subsolos.

Desce-se por dentro dela

como quem procura uma chave antiga

em uma casa que já foi nossa.

Mas mesmo lá,

onde a luz chega atrasada,

alguma coisa tua me encontra.

 

E então eu pergunto 

com a seriedade dos poetas

e a imprudência dos apaixonados:

qual é o limite

do sentimento que nos une?

 

Será a distância?

Ela tenta, coitada.

Puxa uma régua, mede o mundo,

faz pose de autoridade.

Mas basta teu nome atravessar meu pensamento

para a geografia perder o emprego.

 

Será o tempo?

Esse senhor antigo,

de relógio no bolso e opinião formada,

que insiste em dizer que tudo passa.

Mas há sentimentos que não passam:

mudam de roupa,

aprendem novas palavras,

ficam mais discretos,

mais elegantes,

às vezes até fingem maturidade 

mas continuam ali,

completamente culpados de existir.

 

Será o silêncio?

Também não.

O silêncio entre nós

não é ausência:

é uma carta fechada

que o coração lê sem abrir.

 

Porque o que nos une

não cabe no limite comum das coisas.

Não é muro,

não é margem,

não é fronteira assinada em cartório.

É rio antigo passando por baixo da cidade,

é raiz conversando no escuro,

é estrela que já morreu

e ainda assim ilumina.

 

Se há um limite,

talvez seja apenas este:

o amor não pode ser menor

do que a verdade que o sustenta.

 

E se for verdade 

mesmo imperfeita,

mesmo humana,

mesmo tropeçando nos próprios sapatos 

então ele atravessa níveis,

camadas, subsolos,

distâncias, calendários

e todas essas burocracias

que a vida inventa

para testar os corações.

 

Pois o sentimento que nos une

não transcende os limites

por desprezá-los.

Transcende porque os conhece,

os toca,

os respeita,

e mesmo assim

continua.

 

Como quem diz:

há fronteiras no mundo,

mas não neste lugar

onde teu nome

ainda encontra abrigo em mim.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 03/07/2026
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