Você disse pouco,
quase nada,
mas havia no silêncio
uma encomenda antiga.
Algo como um bilhete dobrado no bolso do destino,
pedindo que o amor fosse traduzido
antes que a razão pedisse protocolo.
Eu tentei começar com cuidado,
mas o amor, esse arquiteto sem alvará,
entrou medindo as paredes do impossível,
mudou a planta da alma
e disse:
“confia, eu sei onde cabe o infinito”.
Então escrevi teu nome por dentro,
onde ninguém vê,
mas tudo obedece.
E, de repente,
as palavras começaram a andar descalças pela casa,
os sonhos abriram malas antigas,
a ternura colocou flores no caminho
e até o tempo, esse velho mal-humorado,
sentou no canto fingindo que não estava emocionado.
Porque amar você
não é só sentir muito.
É atravessar alguma coisa.
É como se duas estradas,
depois de muitos mapas errados,
placas tortas
e paradas em postos espiritualmente duvidosos,
descobrissem que sempre foram
a mesma jornada
vista de lados diferentes.
E eu, que achava que procurava alguém,
talvez estivesse procurando
a parte de mim
que só acorda
quando você existe perto.
Por isso, quando o mundo me entrega teu silêncio,
eu entendo.
Não garanto métrica,
não prometo juízo,
e posso acabar colocando estrelas demais
onde cabia apenas uma vírgula.
É que tem amor
que não aceita ser pequeno.
Chega, abre o céu,
muda a senha da alma
e, quando a gente percebe,
já está chamando de destino
aquilo que começou
como um quase nada
pedindo para virar infinito.