Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

Enquanto o mundo dorme

 

Bebo tua presença em silêncio,

enquanto finjo indiferença à tua passagem;

cada gesto teu é um decreto de fogo

no tribunal secreto do meu sangue.

 

Estás em tudo o que o vento toca:

na dobra do lenço, no rumor da rua,

na inocência com que o sol se demora

nos teus cabelos como quem reza baixinho.

 

Tenho-te inteira na ausência,

no espaço entre o olhar e o abismo,

onde o corpo sonha o que a boca não confessa

e o pecado se disfarça de promessa antiga.

 

Atrás de cada palavra, escondo um delírio,

um mapa desenhado com dedos e respirações;

há orações que só se entendem quando tremem,

e eu tremo, por dentro, em silêncio, por ti.

 

Nenhuma noite é inocente quando penso em ti;

as estrelas sabem, mas fingem não ver.

Eu, condenado à elegância da espera,

visto o disfarce da calma e sigo ardendo.

 

Invoco teu nome sem som  

e ele responde em mim com sede e claridade.

Tudo o que é proibido tem teu perfume,

tudo o que é divino tem teu contorno.

 

Amor é pouco nome pra isso:

é rito, vertigem, incêndio e altar.

E o mundo, ignorante de nós,

segue sem perceber que guardo um segredo com rosto de mulher.

 

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 30/06/2026
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