Bebo tua presença em silêncio,
enquanto finjo indiferença à tua passagem;
cada gesto teu é um decreto de fogo
no tribunal secreto do meu sangue.
Estás em tudo o que o vento toca:
na dobra do lenço, no rumor da rua,
na inocência com que o sol se demora
nos teus cabelos como quem reza baixinho.
Tenho-te inteira na ausência,
no espaço entre o olhar e o abismo,
onde o corpo sonha o que a boca não confessa
e o pecado se disfarça de promessa antiga.
Atrás de cada palavra, escondo um delírio,
um mapa desenhado com dedos e respirações;
há orações que só se entendem quando tremem,
e eu tremo, por dentro, em silêncio, por ti.
Nenhuma noite é inocente quando penso em ti;
as estrelas sabem, mas fingem não ver.
Eu, condenado à elegância da espera,
visto o disfarce da calma e sigo ardendo.
Invoco teu nome sem som
e ele responde em mim com sede e claridade.
Tudo o que é proibido tem teu perfume,
tudo o que é divino tem teu contorno.
Amor é pouco nome pra isso:
é rito, vertigem, incêndio e altar.
E o mundo, ignorante de nós,
segue sem perceber que guardo um segredo com rosto de mulher.