Há quem confunda amor com vitrine.
Pega um sentimento emprestado, passa perfume de profundidade, coloca uma legenda com duas palavras difíceis e pronto: nasce uma alma intensa em edição limitada.
A poesia, coitada, entra limpa e sai fantasiada.
Vira recibo emocional, documento falso de grandeza, RG plastificado de uma sensibilidade que nunca compareceu para tirar a foto.
E há também a criatividade de xerox:
a pessoa copia a centelha, aumenta o contraste, muda a fonte, coloca uma vírgula dramática no fim e jura que foi revelação.
É quase bonito.
Quase.
Como uma flor de plástico tentando explicar primavera.
O problema é que, depois de falsificar tanto o próprio brilho, a criatura começa a acreditar no reflexo.
Alimenta a ilusão com garfinho de sobremesa, chama delírio de intuição, carência de destino, inveja de inspiração e qualquer migalha de aplauso de banquete espiritual.
Então a realidade, pobrezinha, tenta entrar pela porta.
Mas não consegue.
A casa está cheia de personagens, espelhos com filtro, frases roubadas, amores performáticos e uma multidão de “eus” ensaiando profundidade diante de uma plateia imaginária.
No fundo, é isso:
tem gente que não quer ser.
Quer parecer.
E parecer dá trabalho.
Exige figurino, iluminação, legenda, cenário, pose, testemunha e, se possível, alguém original por perto para servir de carregador portátil de autenticidade.
Mas a vida, essa velha senhora sem paciência para teatro ruim, sempre dá um jeito de apagar a luz no meio da cena.
E aí sobra o quê?
A pessoa.
Sem edição.
Sem metáfora.
Sem plateia.
Só ela, tentando convencer o vazio
de que aquilo tudo era presença.