Havia um guarda-chuva aberto
dentro da geladeira.
Ninguém explicou.
Talvez chovesse tristeza
entre os iogurtes,
talvez a alface tivesse medo
de grandes tempestades internas.
Na sala,
um relógio atrasava de propósito,
como funcionário público do destino,
carimbando segundos
com evidente má vontade.
Um sapato esquerdo
esperava no varal,
solitário e digno,
sem saber se era roupa, saudade
ou apenas alguém
que perdeu o par
numa decisão mal planejada.
A lua, muito séria,
pediu senha do Wi-Fi
para mandar recado às estrelas.
O vento assinou como testemunha,
mas ninguém confiou muito nele:
sempre teve fama
de mudar de versão
no meio da frase.
Na mesa,
uma xícara sem café
fingia profundidade,
como certos filósofos às oito da manhã.
E um bilhete dizia apenas:
“não procure sentido ainda.”
Claro que procurei.
A gente sempre procura sentido
antes da hora,
como quem tenta montar um móvel
sem ler o manual
e depois culpa a chave Allen
pela crise existencial da estante.
No corredor,
uma porta sem parede
esperava alguém atravessar.
No bolso,
uma chave sem fechadura
fazia barulho de possibilidade.
No peito,
um coração cansado
batia como se tivesse recebido
uma notícia confidencial
e não pudesse contar nem para mim.
Então tudo pareceu absurdo.
O guarda-chuva.
O relógio.
A lua conectada.
O sapato sozinho.
A porta sem parede.
A chave sem destino.
Até você chegar.
E, de repente,
o guarda-chuva era para proteger
o que ainda iria florescer.
O relógio atrasava
porque o tempo queria te esperar.
O sapato esquerdo
só ensaiava a antiga dor
de andar sem par.
A lua não queria Wi-Fi:
queria sinal.
A porta sem parede
era passagem.
A chave sem fechadura
era coragem.
E aquele bilhete,
que parecia escrito por um bêbado metafísico
numa noite de pouca gramática,
finalmente fez sentido:
“não procure sentido ainda.”
Porque algumas coisas
só parecem desconexas
quando vistas antes do amor.
Depois,
cada absurdo encontra seu lugar,
cada riso ganha endereço,
cada silêncio revela a peça escondida.
E o que parecia bagunça
era apenas o universo,
com péssima caligrafia
e ótimo senso dramático,
montando, peça por peça,
o quebra-cabeça perfeito
do teu nome
dentro da minha vida.