Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

 

Havia um guarda-chuva aberto

dentro da geladeira.

 

Ninguém explicou.

 

Talvez chovesse tristeza

entre os iogurtes,

talvez a alface tivesse medo

de grandes tempestades internas.

 

Na sala,

um relógio atrasava de propósito,

como funcionário público do destino,

carimbando segundos

com evidente má vontade.

 

Um sapato esquerdo

esperava no varal,

solitário e digno,

sem saber se era roupa, saudade

ou apenas alguém

que perdeu o par

numa decisão mal planejada.

 

A lua, muito séria,

pediu senha do Wi-Fi

para mandar recado às estrelas.

 

O vento assinou como testemunha,

mas ninguém confiou muito nele:

sempre teve fama

de mudar de versão

no meio da frase.

 

Na mesa,

uma xícara sem café

fingia profundidade,

como certos filósofos às oito da manhã.

 

E um bilhete dizia apenas:

 

“não procure sentido ainda.”

 

Claro que procurei.

 

A gente sempre procura sentido

antes da hora,

como quem tenta montar um móvel

sem ler o manual

e depois culpa a chave Allen

pela crise existencial da estante.

 

No corredor,

uma porta sem parede

esperava alguém atravessar.

 

No bolso,

uma chave sem fechadura

fazia barulho de possibilidade.

 

No peito,

um coração cansado

batia como se tivesse recebido

uma notícia confidencial

e não pudesse contar nem para mim.

 

Então tudo pareceu absurdo.

 

O guarda-chuva.

O relógio.

A lua conectada.

O sapato sozinho.

A porta sem parede.

A chave sem destino.

 

Até você chegar.

 

E, de repente,

o guarda-chuva era para proteger

o que ainda iria florescer.

 

O relógio atrasava

porque o tempo queria te esperar.

 

O sapato esquerdo

só ensaiava a antiga dor

de andar sem par.

 

A lua não queria Wi-Fi:

queria sinal.

 

A porta sem parede

era passagem.

 

A chave sem fechadura

era coragem.

 

E aquele bilhete,

que parecia escrito por um bêbado metafísico

numa noite de pouca gramática,

finalmente fez sentido:

 

“não procure sentido ainda.”

 

Porque algumas coisas

só parecem desconexas

quando vistas antes do amor.

 

Depois,

cada absurdo encontra seu lugar,

cada riso ganha endereço,

cada silêncio revela a peça escondida.

 

E o que parecia bagunça

era apenas o universo,

com péssima caligrafia

e ótimo senso dramático,

 

montando, peça por peça,

o quebra-cabeça perfeito

do teu nome

dentro da minha vida.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 27/06/2026
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