O Amor Não Arromba Portas
Ela dizia que queria amor,
mas trancava a porta
com sete chaves,
dois cadeados,
um alarme emocional
e um cachorro imaginário
chamado “não estou pronta”.
Queria ser conquistada,
mas atendia a vida
pela fresta.
Deixava flores na janela,
perfume no corredor,
sinais no vento,
frases bonitas no olhar,
mas quando alguém chegava perto
apagava a luz da varanda
e fingia que era só decoração.
Tinha coração de castelo antigo:
torres altas,
muros elegantes,
jardim bem cuidado,
mas a ponte levadiça
vivia em manutenção.
E ainda reclamava, com certa razão
e um leve drama de novela das seis,
que ninguém sabia atravessar.
Mas como atravessar
um rio que muda de lugar
toda vez que alguém aprende a nadar?
Como chegar ao afeto
se ela escondia o endereço,
rasgava o convite
e depois culpava o carteiro
pela demora da carta?
Ela queria um amor corajoso,
desses que enfrentam tempestade,
dragão, silêncio e sogra simbólica;
mas, se o amor batia à porta,
ela perguntava pelo interfone:
— Quem é?
— Sou eu, o amor.
— Tem agendamento?
Havia nela
uma delicadeza cercada de arame farpado,
uma esperança vestida de armadura,
uma ternura que colocava capacete
antes mesmo do primeiro abraço.
Talvez tivesse aprendido cedo
que abrir a porta
também permite a entrada do frio.
Talvez por isso mantivesse o sol do lado de fora,
só para não correr o risco
de uma chuva entrar depois.
Mas o amor, coitado,
não é ladrão de banco.
Não deveria precisar
desativar sensores,
escalar muralhas,
decifrar enigmas
e ainda provar, em três vias autenticadas,
que veio em paz.
Ser conquistada
não é ser invadida.
É deixar uma chave possível
debaixo do vaso,
uma luz pequena acesa,
um sim discreto na janela,
uma brecha honesta
por onde a vida possa entrar
sem arrombar ninguém.
Porque há amores que desistem
não por falta de coragem,
mas por excesso de labirinto.
E há mulheres que passam anos
esperando alguém capaz de encontrá-las,
sem perceber
que até o destino precisa
de uma placa na estrada.
No fundo,
ela não queria apenas ser conquistada.
Queria ser amada
sem precisar se defender.
Mas, para isso,
um dia teria de fazer
a mais perigosa das viagens:
abrir a porta
por dentro.