Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

O Amor Não Arromba Portas

 

Ela dizia que queria amor,

mas trancava a porta

com sete chaves,

dois cadeados,

um alarme emocional

e um cachorro imaginário

chamado “não estou pronta”.

 

Queria ser conquistada,

mas atendia a vida

pela fresta.

 

Deixava flores na janela,

perfume no corredor,

sinais no vento,

frases bonitas no olhar,

mas quando alguém chegava perto

apagava a luz da varanda

e fingia que era só decoração.

 

Tinha coração de castelo antigo:

torres altas,

muros elegantes,

jardim bem cuidado,

mas a ponte levadiça

vivia em manutenção.

 

E ainda reclamava, com certa razão

e um leve drama de novela das seis,

que ninguém sabia atravessar.

 

Mas como atravessar

um rio que muda de lugar

toda vez que alguém aprende a nadar?

 

Como chegar ao afeto

se ela escondia o endereço,

rasgava o convite

e depois culpava o carteiro

pela demora da carta?

 

Ela queria um amor corajoso,

desses que enfrentam tempestade,

dragão, silêncio e sogra simbólica;

mas, se o amor batia à porta,

ela perguntava pelo interfone:

 

— Quem é?

— Sou eu, o amor.

— Tem agendamento?

 

Havia nela

uma delicadeza cercada de arame farpado,

uma esperança vestida de armadura,

uma ternura que colocava capacete

antes mesmo do primeiro abraço.

 

Talvez tivesse aprendido cedo

que abrir a porta

também permite a entrada do frio.

Talvez por isso mantivesse o sol do lado de fora,

só para não correr o risco

de uma chuva entrar depois.

 

Mas o amor, coitado,

não é ladrão de banco.

Não deveria precisar

desativar sensores,

escalar muralhas,

decifrar enigmas

e ainda provar, em três vias autenticadas,

que veio em paz.

 

Ser conquistada

não é ser invadida.

 

É deixar uma chave possível

debaixo do vaso,

uma luz pequena acesa,

um sim discreto na janela,

uma brecha honesta

por onde a vida possa entrar

sem arrombar ninguém.

 

Porque há amores que desistem

não por falta de coragem,

mas por excesso de labirinto.

 

E há mulheres que passam anos

esperando alguém capaz de encontrá-las,

sem perceber

que até o destino precisa

de uma placa na estrada.

 

No fundo,

ela não queria apenas ser conquistada.

 

Queria ser amada

sem precisar se defender.

 

Mas, para isso,

um dia teria de fazer

a mais perigosa das viagens:

 

abrir a porta

por dentro.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 26/06/2026
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