Eu Reconheço pelo Campo
Eu sou daqueles
que não reconhece um amor
pela ficha cadastral,
pelo signo bem-comportado,
pela foto bonita
ou pelo currículo afetivo
com firma reconhecida.
Eu reconheço pela energia.
Por aquele susto manso
que atravessa o peito
como se uma estrela antiga
batesse na porta
dizendo:
“abre, criatura,
eu já estive aqui antes.”
Reconheço pelo olhar
quando ele acende
uma lâmpada que eu nem sabia
que ainda tinha tomada.
Pelo silêncio
que não constrange.
Pela presença
que chega sem fazer barulho
e, mesmo assim,
muda a mobília inteira da alma.
Há amores que vêm com explicação.
Os meus, não.
Os meus chegam com poeira de galáxia
na barra da roupa,
com cheiro de destino atrasado,
com aquela cara suspeita
de quem foi combinado pelo universo
numa reunião secreta
sem ata, sem testemunha
e, claramente,
sem me consultar.
Porque o universo,
quando resolve aprontar,
não manda e-mail.
Manda arrepio.
Manda coincidência demais
para caber na estatística.
Manda um olhar que fica.
Manda o coração batendo fora do horário comercial.
Manda a razão pedindo calma
e a alma respondendo:
“chegou tarde, já reconheci.”
Eu sou daqueles
que sente quando a conexão
não nasceu ontem.
Há algo no pulso,
na frequência,
na respiração do instante,
como se duas origens estelares
se lembrassem, de repente,
que já foram luz
antes de aprenderem
a usar nome, sapato e documento.
E então não adianta disfarçar.
O corpo sabe.
O olhar sabe.
A pele percebe sem fazer escândalo.
O coração, esse funcionário indisciplinado,
abandona a repartição da prudência
e começa a carimbar esperança
em todos os papéis internos.
Amor assim
não precisa pedir licença à lógica.
Ele chega com autoridade de cometa,
bagunça o céu da gente,
derruba duas certezas,
reorganiza três planetas
e ainda pergunta, com inocência:
“aconteceu alguma coisa?”
Aconteceu.
A alma reconheceu
aquilo que a boca ainda tentava explicar.
E quando isso acontece,
eu não discuto muito.
Apenas escuto
o velho pulsar da criação
batendo dentro do peito
e digo, quase em silêncio:
eu conheço essa luz.
Talvez de outra vida.
Talvez de outra estrela.
Talvez daquele lugar
onde o amor nasce
antes de virar encontro.