Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

Eu Reconheço pelo Campo

 

Eu sou daqueles

que não reconhece um amor

pela ficha cadastral,

pelo signo bem-comportado,

pela foto bonita

ou pelo currículo afetivo

com firma reconhecida.

 

Eu reconheço pela energia.

 

Por aquele susto manso

que atravessa o peito

como se uma estrela antiga

batesse na porta

dizendo:

 

“abre, criatura,

eu já estive aqui antes.”

 

Reconheço pelo olhar

quando ele acende

uma lâmpada que eu nem sabia

que ainda tinha tomada.

 

Pelo silêncio

que não constrange.

Pela presença

que chega sem fazer barulho

e, mesmo assim,

muda a mobília inteira da alma.

 

Há amores que vêm com explicação.

Os meus, não.

 

Os meus chegam com poeira de galáxia

na barra da roupa,

com cheiro de destino atrasado,

com aquela cara suspeita

de quem foi combinado pelo universo

numa reunião secreta

sem ata, sem testemunha

e, claramente,

sem me consultar.

 

Porque o universo,

quando resolve aprontar,

não manda e-mail.

Manda arrepio.

 

Manda coincidência demais

para caber na estatística.

Manda um olhar que fica.

Manda o coração batendo fora do horário comercial.

Manda a razão pedindo calma

e a alma respondendo:

“chegou tarde, já reconheci.”

 

Eu sou daqueles

que sente quando a conexão

não nasceu ontem.

 

Há algo no pulso,

na frequência,

na respiração do instante,

como se duas origens estelares

se lembrassem, de repente,

que já foram luz

antes de aprenderem

a usar nome, sapato e documento.

 

E então não adianta disfarçar.

 

O corpo sabe.

O olhar sabe.

A pele percebe sem fazer escândalo.

O coração, esse funcionário indisciplinado,

abandona a repartição da prudência

e começa a carimbar esperança

em todos os papéis internos.

 

Amor assim

não precisa pedir licença à lógica.

 

Ele chega com autoridade de cometa,

bagunça o céu da gente,

derruba duas certezas,

reorganiza três planetas

e ainda pergunta, com inocência:

 

“aconteceu alguma coisa?”

 

Aconteceu.

 

A alma reconheceu

aquilo que a boca ainda tentava explicar.

 

E quando isso acontece,

eu não discuto muito.

 

Apenas escuto

o velho pulsar da criação

batendo dentro do peito

e digo, quase em silêncio:

 

eu conheço essa luz.

 

Talvez de outra vida.

Talvez de outra estrela.

Talvez daquele lugar

onde o amor nasce

antes de virar encontro.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 14/06/2026
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